Estudo da Harvard aponta que ferramentas de IA potencializam o burnout
Um novo estudo publicado na Harvard Business Review nesta segunda-feira, 9, por duas pesquisadoras indica que ferramentas de Inteligência Artificial (IA) podem intensificar a carga de trabalho humano e potencializar o burnout. A conclusão contraria a promessa de que a tecnologia reduziria tarefas operacionais e permitiria maior foco em atividades estratégicas e de valor agregado.
Entre os efeitos observados estão o aumento do ritmo de trabalho, a ampliação do número de tarefas simultâneas e a extensão da jornada — muitas vezes de forma não solicitada pelo próprio funcionário.
O estudo acompanhou, ao longo de 2025, uma empresa de tecnologia norte-americana com mais de 200 funcionários. Foram realizadas mais de 40 entrevistas com profissionais das áreas de engenharia, produto, design, pesquisa e operações.
A pesquisa identificou três principais mecanismos de intensificação do trabalho que comprometem a carga laboral e reduzem a qualidade de vida dos trabalhadores que utilizam as ferramentas de IA.
Acúmulo de funções
O primeiro ponto identificado foi a expansão das responsabilidades concentradas nos trabalhadores humanos. Com o apoio da IA, profissionais passaram a assumir tarefas que antes pertenciam a outras áreas.
“Gerentes de produto e designers começaram a escrever código; pesquisadores assumiram tarefas de engenharia; e indivíduos em toda a organização se aventuraram em trabalhos que, no passado, teriam terceirizado, adiado ou evitado completamente”, apontam as autoras.
No entanto, efeitos colaterais começaram a surgir com o desbalanceamento das funções. “Os engenheiros se viam cada vez mais orientando colegas que estavam ‘programando por instinto’ e finalizando solicitações de pull request incompletas”, relatam.
Sem pausa para o lanche
Outro ponto destacado foi a redução de intervalos e momentos de lazer. Segundo o estudo, profissionais passaram a utilizar pausas naturais — como horários de descanso ou deslocamentos — para realizar tarefas consideradas de menor esforço cognitivo, com apoio da IA.
“Essas ações raramente eram percebidas como trabalho adicional, mas, com o tempo, resultaram em jornadas com menos pausas naturais e envolvimento contínuo com as tarefas”, descrevem as pesquisadoras.
Como consequência, os períodos de recuperação diminuíram, enquanto as fronteiras entre vida pessoal e profissional se tornaram mais difusas. Esse cenário favoreceu a extensão da carga horária e períodos prolongados de trabalho.
Ainda mais trabalho
Além do acúmulo de funções e do enfraquecimento dos limites entre vida pessoal e carreira, a pesquisa observou a introdução de um novo ritmo produtivo. O multitarefa deixou de ser uma opção e passou a ser praticamente obrigatório para acompanhar o aumento das demandas.
“Embora a sensação de ter um ‘parceiro de IA’ proporcionasse um impulso inicial, a realidade envolvia constante alternância de atenção, verificações frequentes dos resultados da IA e um número crescente de tarefas em aberto. Isso criava sobrecarga cognitiva e a sensação de estar sempre fazendo malabarismos, mesmo quando o trabalho parecia produtivo”, afirmam.
Com estes resultados, a pesquisa formulou novas linhas de ação para equilibrar a utilização da ferramenta com um trabalho que não penalize o funcionário com a sobrecarga de mais funções. Entre as ações de governança proposta foram as pausas intencionais para diminuição da sobrecarga, sequenciamento de tarefas e tempos de conexão e socialização entre os funcionários. “Nossas descobertas sugerem que, sem intenção, a IA facilita o aumento da produtividade, mas dificulta a interrupção.”
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