Entre araras, tuiuiús, peixes de piracema e mamíferos que cruzam continentes, o Pantanal pode se tornar, em março de 2026, o epicentro de uma das discussões ambientais mais estratégicas do planeta. Campo Grande está cotada para sediar a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), encontro que reúne 133 países e pode consolidar Mato Grosso do Sul no mapa da diplomacia ambiental internacional. A etapa decisiva para confirmar o Brasil como sede passa pelo Senado, com a relatoria do PDL 50/2026 sob responsabilidade do senador Nelsinho Trad, presidente da Comissão de Relações Exteriores. O projeto valida o acordo internacional que garante o País como anfitrião do encontro. “O que está em jogo não é apenas a realização de um evento. É o posicionamento estratégico de Mato Grosso do Sul no cenário internacional”, afirma o senador. O que está em discussão Criada em 1979, a Convenção sobre Espécies Migratórias é o único tratado global dedicado exclusivamente à proteção de animais que cruzam fronteiras ao longo do ciclo de vida. Atualmente, 132 países e a União Europeia integram o acordo. No âmbito da Convenção, estão listadas 1.189 espécies migratórias: 962 aves 94 mamíferos terrestres 64 mamíferos aquáticos 58 peixes 10 répteis 1 inseto Muitas dessas espécies passam pelo território brasileiro — inclusive pelo Pantanal, uma das maiores áreas úmidas do mundo e rota natural de aves e peixes. Diferentemente das conferências climáticas, a COP das espécies migratórias trata de rotas ecológicas, preservação de habitats e cooperação transnacional. Ou seja: proteger um animal que cruza países exige coordenação diplomática, acordos técnicos e compromissos multilaterais. Impacto direto na economia A expectativa é que o evento reúna mais de dois mil especialistas e cerca de três mil participantes ao longo da semana, entre 23 e 29 de março de 2026. O gasto médio diário de um visitante em Campo Grande é estimado em R$ 684. Em sete dias, a circulação direta pode ultrapassar R$ 14 milhões, com reflexo imediato em hotelaria, gastronomia, transporte e comércio. O Governo do Estado já anunciou investimento de R$ 10 milhões na infraestrutura do evento. O custo estimado para o governo federal gira em torno de R$ 86 milhões, incluindo logística, segurança, tradução simultânea, estrutura técnica e apoio às delegações internacionais. “São empregos temporários, fortalecimento do setor de serviços e visibilidade internacional”, destaca Nelsinho. A taxa média de ocupação hoteleira da Capital, hoje em torno de 54%, deve crescer significativamente no período. Geopolítica ambiental no coração do Centro-Oeste O Brasil já sediou uma grande conferência climática internacional. Agora, a COP15 das espécies migratórias traz outra dimensão: a proteção de rotas ecológicas que ultrapassam fronteiras políticas. Como relator no Plenário do Senado, Nelsinho Trad conduz a etapa que dá segurança jurídica ao compromisso internacional. “O Senado tem a responsabilidade de garantir estabilidade institucional aos acordos internacionais. O Brasil precisa participar dessas discussões com voz ativa, defendendo seus interesses e sua realidade.” Sediar o encontro no Centro-Oeste envia uma mensagem política e ambiental clara: o debate sobre biodiversidade não está restrito aos grandes centros ou ao litoral — ele passa pelo bioma pantaneiro. Onde acontecerá A chamada “Blue Zone” será instalada no Bosque Expo. Atividades paralelas devem ocorrer no Bioparque Pantanal, na Casa do Homem Pantaneiro e no Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo. Setores hoteleiro e aéreo já foram mobilizados para ampliar a capacidade de atendimento. Para o senador, sediar a COP15 em Mato Grosso do Sul representa mais do que protagonismo ambiental. “Defendemos desenvolvimento, geração de renda e desenvolvimento sustentável. Essa é a mensagem que queremos levar ao mundo.” Se confirmada, a COP15 colocará o Pantanal não apenas como símbolo de biodiversidade, mas como palco de uma negociação global que pode influenciar o futuro de espécies que cruzam oceanos, continentes e fronteiras — e que dependem da cooperação entre nações para continuar existindo.