O Polonês, de J. M. Coetzee, ressalta o “estranhamento” entre os personagens Witold e Beatriz
Soraya Castro
Especial para o Jornal Opção
Tinha 16, talvez 17 anos, quando uma professora de literatura colocou em minhas mãos um exemplar de “Desonra” (Companhia das Letras, 248 páginas, tradução de José Roberto Arantes). Era meu primeiro contato como escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, de 86 anos, e eu não sabia ainda o que aquilo significava. Carregava o livro para todo lado.
No intervalo de uma aula de ballet, sentada no chão da recepção, alguém passou por mim e disse, olhando a capa: “Coetzee? Acho que você é um pouco nova para tanto sofrimento”.
Terminei o livro sem saber onde colocar aquilo. Não é por acaso que J. M. Coetzee recebeu o Nobel de Literatura em 2003.
Sua obra inteira trabalha nesse registro: sem redenção, sem anestesia. O autor da África do Sul confia no leitor o suficiente para não explicar o que acabou de fazer com ele. Coetzee não oferece saída. “O Polonês” (Companhia das Letras, 144 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), seu mais recente romance publicado no Brasil, não é diferente. Só que dessa vez o escancaro é mais silencioso, mais contido e, por isso, mais cruel.
No romance, um pianista polonês apaixona-se por Beatriz, uma patrona das artes catalã, durante uma passagem por Barcelona. Ele, intensidade pura. Ela, praticidade. Entre os dois, um idioma que nenhum domina de verdade e uma distância que a paixão não consegue atravessar.
Prosa direta, quase clínica
Witold Walczykiewicz (“cujo nome tem tantos Ws e Zs que ninguém no conselho consegue pronunciá-lo”, ironiza Beatriz) é um homem que vive de traduzir emoção em som. Intérprete controverso de Chopin, chega a Barcelona com seu inglês incompleto e sua intensidade desconcertante. Beatriz o recebe com eficiência e cortesia, e é exatamente aí que Coetzee começa seu jogo.
O romance inteiro é narrado pela perspectiva dela, numa prosa direta, quase clínica, que coloca o leitor dentro de sua cabeça sem avisar.
E, dentro da cabeça de Beatriz, Witold é sempre uma pergunta. O que ele quer? Como surgiu essa paixão avassaladora? Ela indaga, observa, mantém distância. Não por frieza, é importante dizer, mas por praticidade. São coisas diferentes.
Esse é um dos movimentos mais inteligentes do livro. Ao narrar tudo sob o olhar de Beatriz, Coetzee nos coloca na mesma posição que ela.
O leitor também não consegue “entrar” em Witold. Também o vê de fora, também estranha a intensidade, também se pergunta o que quer.
Não lemos sobre o distanciamento de Beatriz, nós o experimentamos. Quando a carta chega no final, o impacto é duplo: surpreende e, ao mesmo tempo, não surpreende. Estávamos condicionados a não esperar movimento dela. Quando ele vem, choca. Mas havia sinais anteriores que amenizam esse choque.
Só que há algo mais fundo operando no livro, e está na estrutura da relação entre os dois.
Durante a leitura, sustentei uma comparação entre um casal clássico da literatura, que também não sabiam se comunicar: Gatsby e Daisy.
Gatsby constrói um idioma inteiro em torno de Daisy, uma mitologia, e ela simplesmente não fala essa língua. Ela não é fria, é prática. O problema é que ele se comunica com uma versão dela que não existe.
Witold faz o mesmo com Beatriz; não é coincidência que ele a chame de Beatrice, em explícita referência a Dante. Ele não está amando a catalã de carne e osso, está amando uma ideia que disparou nele.
Porém, há uma diferença crucial que Coetzee aprofunda onde Fitzgerald não foi (ou não quis ir): Daisy sabe o que Gatsby sente e escolhe não corresponder. Beatriz genuinamente não consegue acessar o que Witold sente.
Ele se expressa por meio de Chopin, de poemas escritos em polonês, de uma intensidade que não cabe no inglês funcional que ambos compartilham.
A tragédia de Gatsby é de escolha. A de Witold é estrutural. E Beatriz, presa nessa estrutura, nunca teve condições de formular uma escolha clara, pois nunca entendeu completamente o que estava sendo perguntado.
Liberdade como condenação
E é aqui que a história se torna existencialista no sentido mais preciso. A liberdade, para Beatriz, é uma condenação. Ela poderia ter dito não desde o início, e disse “não” várias vezes, mas continuou.
As justificativas aparecem, o marido, os filhos, a vida organizada, mas funcionam menos como culpa e mais como desculpa para o mundo. Parece haver nela uma fraude silenciosa consigo mesma, não com os outros. E a estrutura colaborava para que esse silêncio interior continuasse.
A carta muda isso. Witold está morto, o casamento não precisa ser protegido, o inglês não é mais necessário.
A estrutura some, e Beatriz escreve. Escreve para alguém que não consegue responder, que não pode julgá-la, que não existe mais. É quando finalmente tem condições de escolher, e escolhe a honestidade. Só que a escolha chegou tarde demais.
A carta era para ela, não para ele. Não há consolo, apenas o custo silencioso de uma vida vivida dentro de estruturas que nunca deixaram espaço para certas perguntas.
Fechei o livro e fiquei quieta por um momento. Pensei na menina sentada no chão do ballet, “Desonra” no colo e alguém alertando-a sobre ser muito nova para tanto sofrimento.
Desta vez, ninguém disse nada. Mas me pergunto, em silêncio, se não fui eu que cheguei cedo demais a “O Polonês”. Se cheguei quando ainda não sabia o que fazer com o que senti. Ou quando já sabia, o que é pior.
Soraya Castro, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.
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