60 anos sem a poeta russa Anna Akhmátova… cuja poesia está mais viva do que nunca
Astier Basílio
De Moscou
A poeta russa Anna Akhmátova morreu no dia 5 de março de 1966 — há 60 anos —, em São Petersburgo, aos 76 anos. Para celebrar sua memória, apresento algumas traduções de poemas de fases distintas de sua carreira.
Deitada num hospital, a poeta escutava as “Bachianas Brasileiras nº 5”, em interpretação da cantora Galina Vichnevskaia (https://tinyurl.com/66jb9jhy) — o que a inspirou na composição do poema abaixo:
1
Ouvindo um canto
Voz de mulher, como vento, se desloca,
Parece negra, notívaga e úmida,
É algo que em pleno voo se toca
Tudo numa outra coisa, súbito, redunda.
Inundação de um brilho adamantino
Por aí algo, rápido, em prata espalha-se
E numa veste de enigmas e signos
Em sedas muito incomuns farfalha
E uma força tão poderosa alumbra.
É uma voz fascinante e que enleva
Como se à frente não houve tumba
E a degraus misteriosos leva.
(19 de dezembro de 1961)
2
Mesmo não sendo próxima do Poeta da Revolução, dedicou-lhe um belíssimo poema que vale como testemunho de uma época.
Maiakóvski em 1913
Eu não te conheci no auge da glória,
Lembro o teu florescer esfuziante
Mas eu me sinto em condições agora
De relembrar esse tempo distante.
Nos teus versos ficaram forte os sons,
Novas vozes fervendo, era um enxame…
Com braços jovens, sem postergações,
Tu levantaste terríveis andaimes.
Tudo o que tu tocavas parecia
Não ser mais como era até então,
Pois o que destruíste, destruía-se
No teu verbo em sentença e pulsação.
Insatisfeito e sem ter companhia
Apressaste tua sina irresoluta,
Ao saber que tu logo sairias
Livre e alegre à tua grande luta
O mar num eco em ressaca bradava
Quando tu recitavas para nós
A chuva ceifava teu olhar com raiva
Contra a cidade tu erguias a voz
Seu nome ainda era sem bis e bravo
Voou num raio em salão sem ar que cerra-se
Para que hoje, pelo país salvo,
Fosse soar como um sinal de guerra
(1940)
3
Aqui, um dos seus mais representativos poemas da fase inicial da Era de Prata.
Com a mão apertei um véu sombrio…
“Estás pálida por que dessa vez?”
— Uma acre tristeza servi-o
Esborrando até a embriaguez.
Como vou esquecer? Nele eu via
Boca torta, pés em tropeção…
Não tocando o corrimão eu ia
Atrás dele indo até o portão.
Ofegante, gritei: “Tudo isso,
Foi brincando. Eu morro sem ti”
Rindo calmo e terrível ele disse:
“Esse vento faz mal, sai daí”.
(8 de janeiro de 1911, Kiev)
[Todas as traduções são de Astier Basílio, escritor, tradutor e crítico literário]
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