Casal de Marrecão vira atração inesperada em lago do Parque Vaca Brava
A presença de um casal de Marrecão (Netta peposaca) no lago do Parque Vaca Brava, no Setor Bueno, tem despertado a curiosidade de moradores e atraído observadores de aves de diferentes regiões. Especialistas apontam que esta pode ser a primeira vez que a espécie é registrada na capital goiana, o que tem transformado o local em ponto de interesse para quem aprecia a observação de aves.
Conhecida pelo porte robusto e comum principalmente no Sul do Brasil, a ave aquática raramente é vista no Centro-Oeste. Ainda assim, o casal tem permanecido no lago do parque há mais de um mês, segundo relatos de observadores — um comportamento considerado incomum para a espécie, que normalmente permanece apenas alguns dias em um mesmo local durante deslocamentos.
A presença do marrecão tem mobilizado até visitantes de outros estados. O bancário aposentado Mauricio Fujiyama, que mora em Brasília, viajou até Goiânia acompanhado da esposa Ilza Fujiyama apenas para ver e registrar a ave.
“Sou bancário aposentado, nasci em São Paulo, mas moro em Brasília há 29 anos. Ficamos sabendo da presença do casal em grupos de observadores de aves no WhatsApp, entre eles o Goiaves, e resolvemos vir”, conta.
Apesar de não se considerar fotógrafo profissional, Fujiyama costuma registrar aves sempre que possível. “Faço as fotos mais para ajudar na identificação e guardar como memória”, explica.
Segundo ele, a curiosidade surgiu ao descobrir que se tratava de uma espécie pouco comum na região. “Eu não conhecia o marrecão. Pesquisando, vi que é uma ave típica do sul do continente, também chamada de marrecão-da-Patagônia, e que não havia registro dela por aqui.”
A busca pelo casal acabou virando uma experiência marcante. “Foi mágico. Vimos que o primeiro registro tinha sido feito em 14 de fevereiro. Como já tinha passado quase um mês e o casal continuava ali, sugeri à minha esposa fazermos um bate-e-volta até Goiânia para ver o bichinho”, relata.
Ao chegarem ao parque, porém, as aves não estavam no lago. “Chegamos por volta das 10 horas e não havia sinal deles. Ficamos observando outras espécies até começar a chover. Fomos almoçar e, quando voltamos, lá estavam eles deslizando suavemente pelo lago. Foi perfeito”, descreve.
Espécie rara na região
O professor de Histologia e Embriologia Jayrson Araújo de Oliveira, da Universidade Federal de Goiás (UFG), que também realiza pesquisas em ornitologia — ramo da zoologia dedicado ao estudo científico das aves — explica que o marrecão é uma espécie característica da região sul da América do Sul, sendo mais comum no Sul do Brasil e em países como Argentina, Paraguai e Uruguai.
Segundo o professor, a presença do casal da ave no lago do Parque Vaca Brava chama atenção justamente por se tratar de um registro incomum na região Centro-Oeste.
“Essa ave é característica do Sul do Brasil e também de regiões da Argentina, Paraguai e Uruguai. Esporadicamente ela pode fazer deslocamentos quando há mudanças de temperatura, principalmente em períodos de frio mais intenso nessas áreas”, explica.
De acordo com Jayrson, registros da espécie fora da área de ocorrência mais comum são raros. “Ela já apareceu, por exemplo, no sul de Mato Grosso, mas é uma ave raríssima nessa região. Até onde eu sei, pode ser o primeiro registro dela aqui em Goiás”, afirma.
O pesquisador ressalta que ainda não é possível afirmar com certeza como o casal chegou a Goiânia. “Isso faz a gente pensar se realmente foi uma ave que veio migrando naturalmente ou se, eventualmente, pode ter sido solta por alguma instituição ou órgão de proteção animal. A gente não tem como afirmar”, pontua.
Apesar do porte robusto, o marrecão tem grande capacidade de deslocamento. “Essas aves são adaptadas para voos longos. Existem marrecas até maiores que fazem migrações muito longas, e o marrecão também pode percorrer grandes distâncias”, explica.
Durante essas viagens, as aves costumam fazer paradas para descanso e alimentação. “Normalmente elas têm pontos de pouso onde descansam, se alimentam e recuperam energia antes de continuar o voo”, diz.
Segundo Jayrson, a orientação durante as migrações envolve memória espacial e reconhecimento visual do ambiente. “Eles são muito visuais e costumam ter rotas já estabelecidas. Conseguem identificar ambientes com água, vegetação e alimento, como lagoas e áreas úmidas”, afirma.
A dieta do marrecão é variada. “Eles se alimentam principalmente de sementes e plantas aquáticas, mas também podem consumir moluscos e insetos. São aves que pastam bastante na vegetação aquática”, explica.
Sobre a permanência das aves em um local, o professor afirma que o tempo pode variar bastante. “Depende da época do ano e principalmente da disponibilidade de alimento. Em muitos casos, aves migratórias ficam três ou quatro dias em um local e depois seguem viagem. Mas como esse é um caso raro, é difícil prever”, ressalta.
Outro aspecto que chama atenção no casal observado em Goiânia é o comportamento tranquilo em relação à presença de pessoas. “Esse casal parece já estar acostumado com ambientes urbanos e com a presença humana. Outras aves que já observei por aqui costumam se incomodar mais”, comenta.
Por isso, segundo ele, existe a possibilidade de que permaneçam por mais tempo no parque. Ainda assim, o professor alerta que a permanência não é garantida. “Mesmo que estejam ali há algum tempo, eles podem simplesmente ir embora de um dia para o outro”, afirma.
Para quem gosta de observação de aves, o professor recomenda aproveitar a oportunidade. “Como é um registro raro para a região, vale a pena observar enquanto eles ainda estão por aqui.”
Características do marrecão
O marrecão é uma das maiores marrecas encontradas na América do Sul e pode atingir cerca de 55 centímetros de comprimento. Entre suas características marcantes estão o bico vermelho intenso nos machos — especialmente durante o período reprodutivo — e o porte robusto.
A espécie costuma viver em banhados, lagoas e áreas de arrozais, alimentando-se principalmente de sementes, plantas aquáticas e pequenos invertebrados.
Dúvidas sobre a origem do casal
Apesar da curiosidade e do interesse gerado pela presença das aves, ainda não se sabe ao certo como o casal chegou a Goiânia. Uma das hipóteses é que tenha ocorrido durante um deslocamento migratório. Outra possibilidade levantada por especialistas é que os animais possam ter sido soltos na região, embora não haja confirmação.
A reportagem procurou a Agência Municipal do Meio Ambiente de Goiânia (AMMA) para saber quando as aves foram vistas pela primeira vez na cidade, se há confirmação de que chegaram durante migração e se existe algum protocolo de monitoramento ou proteção, já que se trata de uma espécie rara na região.
O órgão informou que, até o momento, não possui respostas sobre o caso.
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