O Campo Grande News ganha um novo olhar sobre o cotidiano com a estreia das crônicas de Gillianno Mazzetto. Filósofo, PhD em Psicologia e executivo com mais de 15 anos na liderança da educação superior, ele agora divide no portal textos sobre comportamento, sociedade e os dilemas de quem lidera. Palestrante, autor de cinco livros e com formação em Harvard e na UC Berkeley, Gillianno escreve de forma direta e provocativa, para quem gosta de refletir além do óbvio e entender melhor as contradições do dia a dia. "Escrevo para quem deseja pensar melhor", diz, Na sequência, a primeira crônica de Gillianno Mazzeto no Campo Grande News : O tempo foge (Tempus Fugit) Caro(a) conviva, Há uma frase que o tempo nos ensina sem pedir licença: a vida, quando olhada de perto, é sempre mais curta do que parecia quando olhávamos de longe. Começo a minha primeira crônica por aqui, pelo tempo, não por acaso. Inicio porque o tempo é a única coisa que possuímos com absoluta igualdade e perdemos com absoluta diferença. Todos temos as mesmas vinte e quatro horas. O que fazemos com elas é onde começa a desigualdade de verdade, a das vidas vividas. Sêneca, o filósofo romano que tinha o raro dom de ser sábio e suportável ao mesmo tempo, escreveu uma carta ao seu amigo Lucílio que atravessou dois mil anos sem perder o fôlego. Nela, o velho estóico dizia algo que parece óbvio e não é: Ita fac, mi Lucili: vindica te tibi. Reivindique-se para si mesmo. Tome posse da sua própria vida. Porque o tempo, Lucílio, foge. Tempus fugit. E quem não o toma conscientemente vê, mais cedo do que espera, que outros o tomaram em seu lugar. Dois mil anos depois, a carta continua sem destinatário fixo. Olho ao redor, olho também para dentro, que é onde as coisas ficam mais honestas, e vejo pessoas extraordinariamente comprometidas a não viver. Não por preguiça. Pelo contrário: por excesso de movimento. Há um tipo particular de ocupação que é, no fundo, uma forma sofisticada de fuga. Enchemos os dias de ruído para não ouvir o que o silêncio diria se déssemos a ele trinta segundos de atenção. Já fui esse tipo de pessoa. Talvez ainda seja, em certas manhãs de segunda-feira. Lembro de uma época em que minha agenda era o meu escudo. Enquanto houvesse reunião, não havia pergunta. E a pergunta que eu não queria ouvir era simples, quase embaraçosa de tão direta: o que você está, de fato, construindo? Não no sentido empresarial, performático da palavra, no sentido humano. Que rastro de sentido você está deixando? Para quem? Sêneca não fala sobre produtividade. Fala sobre eleição. Eleger é, etimologicamente, separar, distinguir, preferir. E a pessoa que não elege, que trata o urgente e o importante com a mesma pressa, não está administrando o tempo. Está sendo administrada por ele. Existe uma diferença enorme entre estar ocupado e estar vivo. E a vida, com a discrição que lhe é característica, não nos avisa quando cruzamos a fronteira entre um e outro. O que me traz até aqui. Estas crônicas, que inicio hoje com a humildade de quem sabe que Baudelaire, Machado e Rodrigues habitam uma estante que eu apenas consigo avistar de longe, não pretendem ensinar nada. Pretendem, na melhor tradição do gênero, sentar-se ao seu lado numa tarde qualquer e perguntar, sem protocolo, o que você tem feito com os dias que a vida insiste em lhe dar. O tempo foge. Isso Sêneca já disse, e disse melhor. O que me interessa é o que fazemos enquanto ele foge. Pense nisso.