Goiana transforma insegurança com carros em um movimento nacional de autonomia feminina
A goiana Vittória Gabriela transformou uma experiência pessoal de insegurança ao lidar com carros em um movimento que hoje alcança dimensão nacional. Criadora da comunidade Dona do Meu Destino, ela passou a questionar a forma como as mulheres se relacionam com o universo automotivo, historicamente dominado por homens, e a falta de acesso a informações básicas que impactam diretamente a autonomia no trânsito.
“A ideia surgiu bem por acaso. Era um projeto da faculdade. Eu não imaginava que ia virar tudo isso”, conta. Segundo Vittória, o ponto de virada ocorreu quando se mudou para Brasília para cursar Engenharia e deixou de contar com o apoio do pai, que sempre cuidou do carro. “Eu sempre quis ser independente, mas não imaginava que precisava saber coisas de carro. Quando fui morar sozinha, comecei a ter vários perrengues”, explicou ao Jornal Opção.
A partir dessa vivência, ela organizou, em 2019, o primeiro evento para ensinar mecânica básica a mulheres. “A gente fez o evento em Brasília, no Parque da Cidade. Tivemos 400 inscrições. Era um projeto de faculdade, sem grande pretensão”, lembra. No ano seguinte, o número saltou para 1.600 inscrições. “Foi aí que eu pensei: ‘caracas, acho que estamos criando um movimento’. Até então era algo vinculado à faculdade, mas virou um projeto independente.”
Com a pandemia, Vittória voltou para Goiânia, passou a investir nas redes sociais e decidiu aprofundar a formação técnica. Interrompeu a graduação para cursar mecânica e enfrentou o preconceito de ser a única mulher da turma. “Eu era a única mulher não só da sala, mas da escola inteira. Questionavam minha capacidade o tempo todo”, afirma.
A linguagem direta e acessível foi decisiva para o crescimento do projeto. Um vídeo simples, explicando como fechar corretamente o capô do carro, viralizou. “Ali ficou claro que existia uma demanda reprimida por informação simples, sem julgamento”, diz. Hoje, a comunidade reúne mais de 876 mil seguidores no Instagram, dos quais 92% são mulheres.
Os relatos recebidos ao longo do tempo ajudaram a moldar a iniciativa. “Tem histórias de mulheres que perderam o pai e ficaram sem ninguém para cuidar do carro, mulheres que se divorciaram e precisaram assumir tudo sozinhas, mulheres que viajam ou que foram morar sozinhas”, relatou. Segundo ela, até quem dirige há muitos anos sente insegurança. “Às vezes, a iniciante se anima mais para aprender. Quem dirige há 20 anos tem vergonha de admitir que não sabe calibrar um pneu”, continuou.
Para Vittória, a principal lacuna está na manutenção preventiva. “A mulher tem muito medo de ser enganada. Chega à oficina sem saber o que trocar, se o orçamento está abusivo. E quando não faz a preventiva, o carro estraga do nada e fica muito mais caro”, afirma. Ela também aponta a compra de veículos como outro ponto sensível. “Muitas não se sentem seguras para escolher um carro sozinhas.”
É nesse contexto que surge o aplicativo gratuito Dona do Meu Destino, previsto para o primeiro semestre de 2026. A proposta é funcionar como uma “amiga experiente dentro do carro”. “Nosso objetivo não é substituir o mecânico, mas atuar antes, trazendo clareza e segurança”, explica. Inspirado em aplicativos de acompanhamento do ciclo menstrual, o app permitirá registrar manutenções, criar históricos, receber lembretes e entender, em linguagem simples, a função de cada item do veículo. “Todo mundo lembra do óleo, mas e o fluido de freio? E o arrefecimento? A ideia é organizar tudo isso.”
O aplicativo também deve oferecer um diagnóstico inicial de problemas comuns, sem substituir a avaliação profissional. “Não é o diagnóstico final. É algo como: o carro não ligou, vamos ver se pode ser a bateria, tentar uma solução simples. Se não der, leva ao mecânico já mais informada”, diz. Outro eixo será a troca de experiências entre mulheres. “Hoje falta um lugar seguro para conversar sobre carro sem julgamento.”
Além de ampliar a autonomia no dia a dia, Vittória acredita que a iniciativa pode incentivar mais mulheres a ingressarem profissionalmente no setor automotivo. “Quando fiz o curso de mecânica, eu era a única mulher. Em um evento em São Paulo, uma menina chorou dizendo que sonhava em ser mecânica, mas ninguém apoiava. Às vezes não é sobre mim, é sobre o que isso representa”, afirma.
Para ela, informação é ferramenta de proteção. “Autonomia no trânsito não é só dirigir. É entender, decidir e não depender. Quando a mulher tem conhecimento, ela deixa de ser vulnerável”, concluiu.
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