Vidas interrompidas: as histórias por trás dos feminicídios em Goiás em 2025
Em 2025, ao menos 60 mulheres foram assassinadas em mais um marco brutal da violência de gênero em Goiás. O número é resultado da estimativa do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, com dados referentes a 2024, somada às estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) relativas a 2025. Desse total, mais da metade dos casos foi registrada no último trimestre do ano.
Os indicadores apontam manutenção e aumento proporcional dos feminicídios entre 2024 e 2025 — de 56 para 60 casos —, além do crescimento na tramitação de processos e procedimentos judiciais relacionados ao tema no Estado.
Justiça contra o feminicídio
Em 2025, a Justiça goiana registrou recorde na abertura de procedimentos judiciais relacionados ao crime de feminicídio. De acordo com o painel estatístico do CNJ, 239 procedimentos foram distribuídos ao Judiciário. Esses registros podem corresponder a inquéritos policiais remetidos sem denúncia, procedimentos investigatórios criminais, pedidos de medidas cautelares, prisões, buscas e apreensões, além de outras apurações preliminares.
No mesmo período, foram abertos 617 novos processos judiciais envolvendo feminicídio consumado ou tentado. Desse total, 603 processos foram baixados, embora parte deles tenha sido iniciada em anos anteriores.
Segundo a juíza Simone Pedra Reis, do Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO), titular do 4º Juizado de Violência Doméstica de Goiânia e integrante do Observatório de Feminicídio e Violência Doméstica do TJ-GO, houve crescimento aproximado de 5% no número de processos em relação a 2024. Ela destaca, ainda, uma mudança no perfil dos agressores.
“Antes, os autores eram majoritariamente homens acima de 60 anos, com criação conservadora. Hoje, são jovens entre 19 e 30 anos, pertencentes a uma geração mais violenta, mais machista e fortemente influenciada pela misoginia nas redes sociais”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.
“Hoje temos um agressor e uma vítima mais jovens, o que causa espanto ao perceber que essa nova geração que atingiu a maioridade — e responde ao Código Penal — é mais violenta, machista e agressiva em relação à mulher.”
De acordo com a magistrada, os meses de março (Carnaval), julho (férias escolares) e dezembro (festividades) concentram maior risco, devido ao aumento da convivência entre vítimas e agressores. Até setembro de 2025, foram registrados cerca de 37 feminicídios em Goiás, enquanto outros 23 ocorreram no último trimestre do ano.
Anuário Brasileiro de Segurança Pública
Embora a edição de 2026 do Anuário esteja prevista para julho deste ano, os dados mais recentes revelam manutenção da violência contra a mulher em Goiás entre 2023 e 2024.
O Estado apresenta indicadores que superam as médias nacionais, como a taxa de 1,5 feminicídio por 100 mil mulheres, acima da média nacional de 1,4. As tentativas de feminicídio também cresceram 8,8%, totalizando 187 casos, com taxa de 5 ocorrências por 100 mil habitantes, frente a 3,6 na média nacional.
Em âmbito nacional, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, aumento de 0,7% em relação a 2023. As tentativas de feminicídio tiveram crescimento ainda mais expressivo, de 19%, somando 3.870 vítimas.
O Anuário da Violência 2025 também aponta que o risco de uma mulher negra ser assassinada é 1,7 vez maior do que o de uma mulher não negra, evidenciando a sobrerrepresentação de mulheres negras entre as vítimas em 22 dos 27 estados brasileiros.
O levantamento mostra ainda que a Polícia Militar recebeu, em 2024, dois chamados por minuto via 190 para ocorrências de violência doméstica. Apesar da concessão de 555.001 medidas protetivas, cerca de 18,3% foram descumpridas.
Quanto ao perfil dos autores, 97% são homens, sendo que oito em cada dez crimes foram praticados por companheiros ou ex-companheiros. A principal arma utilizada foi a arma branca (48,4%), seguida por armas de fogo (23,6%).
Para a juíza Simone Reis, mulheres negras, periféricas e socialmente vulnerabilizadas sofrem mais violência por terem menor acesso aos mecanismos de proteção.
“Mulheres com melhor condição socioeconômica procuram advogados, a Defensoria ou as delegacias. Já as mulheres periféricas e negras são duplamente discriminadas e têm menos acesso a esses mecanismos”, afirma.
Casos que repercutiram
Apesar da recorrência dos crimes, especialistas reforçam que a história das vítimas deve prevalecer sobre a dos agressores. Entre os casos que marcaram 2025 está o da técnica de enfermagem Rosilene Barbosa, de 38 anos, morta a tiros em Rio Verde, pelo ex-companheiro, no dia 29 de novembro.
A vítima havia deixado a própria casa e morava com uma amiga para se proteger do agressor, junto com o filho de 12 anos. Uma semana antes do crime, Rosilene havia solicitado medida protetiva de urgência. Na véspera do assassinato, o autor ligou para o filho afirmando que “não o veria mais”. O caso foi registrado por câmeras de video-monitoramento que mostraram o assassinato.
Outro caso foi o da vendedora Magna Fernandes Teodoro, de 31 anos, morta a facadas pelo ex-companheiro em Morrinhos, no dia 8 de dezembro, dentro da própria residência. Ela deixou dois filhos, de 9 e 3 anos.
Em Goiânia, Cleidslane Henrique, de 41 anos, foi assassinada a facadas no Bosque dos Buritis, em 19 de novembro. O autor usava tornozeleira eletrônica no momento do crime, enquanto a vítima prestava serviço comunitário no local. Ela havia denunciado ameaças à Polícia Militar.
O caso aconteceu no parque enquanto a vítima prestava serviços comunitários na Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma).
Também na capital, a técnica de enfermagem Bárbara Valim da Silva, de 28 anos, foi morta a tiros pelo ex-companheiro no dia 20 de outubro, em sua residência, no setor Jardim Cerrado 6. Ela possuía medida protetiva em vigor contra o agressor.
O último feminicídio registrado no Estado ocorreu em 28 de dezembro, em Orizona, quando Nayara Eloá Gomes, de 34 anos, foi atropelada e morta pelo companheiro com um caminhão após uma discussão, ao qual fez fuga para uma plantação no veículo.
Descrédito na Justiça
Levantamento já divulgado pelo Jornal Opção revela que há descrédito das mulheres goianienses na rede de proteção prevista pela Lei Maria da Penha. Apenas 17% acreditam plenamente que a lei as protege, enquanto 58% avaliam que ela protege pouco ou quase nunca.
A percepção de silêncio também é predominante: 85% das entrevistadas afirmam que as vítimas não denunciam ou denunciam raramente. Apenas 2,56% acreditam que as denúncias ocorrem sempre.
Entre os principais motivos para a não denúncia está o medo do agressor, citado por 86,29% das mulheres, percentual superior à média nacional de 73%, registrada em 2023.
Para Simone Reis, o enfrentamento ao crime passa pela ampliação e divulgação das medidas protetivas, que podem reduzir em até 90% o risco de feminicídio. Ela defende ainda a descentralização e integração dos serviços hoje concentrados na capital, com a interiorização da Defensoria Pública, expansão das delegacias especializadas e facilitação do acesso eletrônico às medidas protetivas.
Leia também: 86% das mulheres em Goiânia têm pouco ou nenhum conhecimento sobre a Lei Maria da Penha
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