A contradição da esquerda brasileira diante da queda de Maduro
Nos últimos dias, o Brasil viveu um contraste político inquietante: enquanto parcelas da esquerda brasileira marcharam e se manifestaram contra a operação militar dos Estados Unidos que culminou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, milhares de venezuelanos, tanto dentro quanto fora da Venezuela — celebraram a queda de um regime que, por mais de uma década, foi responsável por crise econômica, repressão política e migração em massa.
Essa dicotomia expõe um abismo entre a retórica ideológica da esquerda e a realidade vivida pelo povo que sofre diretamente sob o autoritarismo chavista. Vale destacar que Maduro e Lula são aliados históricos.
Em capitais brasileiras como São Paulo, Brasília e Goiânia, sindicatos, movimentos sociais e coletivos de esquerda tomaram as ruas para repudiar a ação dos EUA, descrevendo-a como “agressão imperialista” e violação da soberania venezuelana, além de pedir a libertação de Maduro.
Para esses grupos, o episódio não representou a queda de um ditador, mas sim uma intervenção externa considerada inaceitável, pouco importando a natureza do regime que estava no poder. Diante disso, impõe-se uma pergunta: se os próprios venezuelanos comemoram nas ruas, proclamando liberdade e o fim da opressão, por que a esquerda brasileira insiste em defender um governante que foi rejeitado pelo seu próprio povo?
Relatos de venezuelanos celebrando a captura de Maduro mostram que a percepção real nas ruas é outra. Em Goiânia, por exemplo, vários grupos de exilados venezuelanos carregaram bandeiras e comemorou a deposição do líder que muitos responsabilizam pela crise humanitária e pela fuga de milhões de pessoas de seu país.
Em diversas cidades onde há comunidades venezuelanas, a esperança de um futuro mais livre e próspero substituiu a resignação — uma reação que deveria ter mais voz no debate público brasileiro.
A crítica ideológica automática ao “intervencionismo americano”, tão comum entre setores da esquerda, soa estranha quando confrontada com o sofrimento concreto de milhões de venezuelanos que vivem longe de casa ou sob condições de vida deploráveis. Ignorar o clamor por liberdade e melhorias sociais em nome de uma defesa abstrata de soberania é, no mínimo, uma visão míope que perde de vista as consequências humanitárias do regime que se busca preservar.
Muitos brasileiros de esquerda parecem mais preocupados em manter a coerência com slogans tradicionais do que em escutar as vozes que realmente experimentam a repressão e a miséria.
Há também um elemento de dissonância política: a esquerda brasileira frequentemente se identifica com a narrativa de solidariedade internacional, mas não consegue reconhecer que, em muitos casos, os mais diretamente afetados, os povos sob regimes autoritários — desejam justamente o oposto do que esses grupos defendem.
A celebração venezuelana diante da queda de Maduro é um exemplo claro disso, indicando que a prioridade da população é a superação de um governo que muitos viam como ilegítimo e destrutivo, não a preservação de uma “revolução bolivariana” desacreditada.
Em última análise, a esquerda brasileira precisa recalibrar sua análise política para além de categorias retóricas hegemônicas e prestar mais atenção às aspirações reais dos povos que afirmam defender. Defender soberania não pode significar apoiar ilesos regimes que sistematicamente violam direitos humanos nem desconsiderar o clamor por mudanças profundas.
A derrubada do regime de Maduro, seja qual for a avaliação sobre a forma como isso ocorreu — foi recebida com alívio e esperança por muitos venezuelanos. Isso deveria ser um ponto de reflexão, não de desprezo, para quem se diz solidário com as lutas democráticas da América Latina.
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