Governo Lula prepara ofensiva para dialogar com motoristas de aplicativo sobre regulamentação
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma ofensiva política para dialogar com motoristas de aplicativos como Uber e 99, segmento visto no Palácio do Planalto como majoritariamente simpático ao bolsonarismo e resistente à agenda trabalhista tradicional.
A estratégia será coordenada pela Secretaria-Geral da Presidência, que pretende percorrer estados nas próximas semanas para ouvir motoristas, mapear demandas e construir uma interlocução direta com a categoria. A ideia é formar ainda neste mês um grupo de trabalho com representantes do setor para discutir o projeto que regulamenta o trabalho por aplicativos em tramitação na Câmara dos Deputados, hoje sob relatoria do deputado Augusto Coutinho.
O governo avalia que, além de contribuir com sugestões ao texto legislativo, o diálogo pode abrir caminho para novas políticas públicas voltadas aos motoristas, como acesso a crédito, previdência e proteção social, sem necessariamente impor vínculo formal nos moldes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
O principal obstáculo está no perfil do segmento. Diferentemente de categorias tradicionais, motoristas e entregadores por aplicativo não são sindicalizados e, em grande parte, rejeitam a chamada “CLTização”, bandeira histórica do PT. Muitos se veem como trabalhadores autônomos, com discurso mais liberal e foco em flexibilidade e renda imediata.
Entre os entregadores, houve maior capacidade de organização. A Aliança Nacional dos Motoboys (ANM) surgiu a partir de grupos de WhatsApp e ficou conhecida por organizar o “breque”, paralisações nacionais para pressionar plataformas por melhores condições. Essa articulação facilitou o diálogo com o Planalto, inclusive com a atuação direta do ministro Guilherme Boulos.
No caso dos motoristas, o cenário é mais complexo. A categoria é numerosa, dispersa regionalmente e marcada por alta rotatividade, já que muitos recorrem aos aplicativos de forma temporária, como alternativa em períodos de desemprego. Essa fragmentação dificulta a criação de uma liderança nacional capaz de representar o grupo em negociações diretas com o governo.
Mesmo assim, a avaliação interna é de que abrir canais de escuta pode reduzir resistências, neutralizar a influência bolsonarista e reposicionar o governo Lula como interlocutor de trabalhadores que hoje se sentem distantes do Estado. O Planalto aposta que o diálogo, mais do que a imposição de regras, será decisivo para conquistar esse público.
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