Obrigação de ser feliz pode estar adoecendo mais do que a tristeza, alerta presidente do Conselho de Psicologia
Em uma sociedade que valoriza desempenho, produtividade e bem-estar constante, sentir tristeza, frustração ou ansiedade passou a ser visto como falha pessoal. Para a presidente do Conselho Regional de Psicologia (CRP09), Jéssica Amorim, essa lógica tem contribuído para o adoecimento psíquico.
Segundo ela, o problema não está na busca por felicidade, mas na ideia de que estar bem o tempo todo é uma obrigação. “Quando ‘estar bem’ vira regra, emoções difíceis passam a ser encaradas como inadequação. Isso gera culpa, sensação de fracasso e faz com que as pessoas tentem evitar qualquer desconforto emocional”, explica em entrevista ao Jornal Opção.
A tentativa de suprimir emoções desagradáveis, no entanto, tende a intensificar o sofrimento. “Evitar emoção geralmente não resolve. Ao contrário, mantém ou agrava o sofrimento”, afirma. Para a psicologia, saúde mental não significa felicidade permanente, mas flexibilidade emocional: a capacidade de sentir, reconhecer e regular emoções, seguindo a vida com sentido mesmo em momentos difíceis.
Esse cenário se agrava diante das condições atuais de trabalho e organização social. Jornadas extensas, hiperconectividade, pressão por performance e insegurança financeira criam um ambiente de sobrecarga contínua. “Não significa que todo mundo esteja doente, mas muita gente está vivendo sobrecarregada por tempo demais, sem tempo de recuperação”, avalia.
Quando esse sofrimento se torna rotina, ele deixa de ser percebido como sinal de alerta. A normalização do cansaço emocional faz com que muitas pessoas deixem de buscar ajuda, acreditando que “é assim mesmo”. O risco, segundo Amorim, é que quadros que poderiam ser tratados precocemente se agravem. Alterações persistentes no sono, na energia, na concentração, no trabalho e nas relações são alguns dos sinais que indicam a necessidade de atenção.
Em meio a esse contexto, campanhas como o Janeiro Branco ajudam a ampliar o debate sobre saúde mental. Para a presidente do CRP09, a iniciativa tem valor por reduzir o tabu e dar linguagem ao sofrimento, mas ainda enfrenta limites. “O problema é quando a conscientização não vem acompanhada de caminhos práticos. A pessoa se reconhece no discurso, mas não sabe o que fazer depois”, afirma.
Ela defende que a campanha esteja ligada a ações concretas e contínuas, como espaços de escuta qualificada, triagens, encaminhamentos e parcerias com serviços locais. “Quando saúde mental vira prática cotidiana em escolas, empresas e serviços, deixa de ser só comunicação e passa a gerar mudança real”, diz.
Outro tema sensível é a forma como a mídia aborda o suicídio. Amorim alerta que uma cobertura sensacionalista, com detalhamento de métodos ou romantização, pode aumentar o risco, especialmente entre pessoas vulneráveis. Por outro lado, o silêncio também não é solução. “Uma cobertura responsável pode proteger, desde que contextualize, evite simplificações e inclua informações de ajuda”, pontua.
Para ela, o aumento do debate público sobre saúde mental reflete tanto maior consciência quanto maior sobrecarga. “Hoje temos mais linguagem para reconhecer o sofrimento, o que faz parecer que ele aumentou. Ao mesmo tempo, existem estressores reais que intensificam esse mal-estar”, analisa.
Apesar do engajamento crescente nas redes sociais sobre o tema, a busca por terapia ainda encontra resistência. Falar sobre saúde mental é mais fácil do que se expor em um processo terapêutico, que exige compromisso e vulnerabilidade. Soma-se a isso o estigma, o medo do autoconhecimento e barreiras práticas como custo e acesso.
“A terapia não é sinal de fraqueza. É um processo que dá trabalho, mas costuma promover transformações profundas”, conclui.
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