Santo Agostinho e Deus: o problema não é o prazer em si, mas idolatrá-lo
Ana Kelly Souto
Especial para o Jornal Opção
D de Deus
Chegamos à quarta letra do Abecedário de Santo Agostinho. Depois do amor, do belo e da confissão, a letra D se impõe na palavra Deus, não como definição religiosa, mas como o critério a partir do qual Agostinho pensa e exercita sua filosofia.
Imagine a cena: é fim de ano, as notificações piscam como luzes de Natal artificiais. Você abre um aplicativo de meditação guiada por uma voz suave que promete “paz interior em dez minutos”. Ao lado, o feed sugere um novo gadget que “vai mudar sua vida”.
Um guru digital posta: “Você é o seu próprio deus”. E, no fundo, permanece uma inquietude teimosa que nenhum like aplaca. Em um mundo onde deuses são algoritmos e o paraíso chega em 24 horas com frete grátis, o que é Deus nesse burburinho da vida? O que Santo Agostinho, aquele bispo africano do século IV, teria a dizer sobre a noção de Deus que paira sobre nossa vida?
No lugar dos antigos espetáculos sangrentos, trocamos gladiadores por realities, vídeos virais de brigas, consumo incessante, bichinhos fofos.
Enfim, os algoritmos nos empurram para um abismo digital que engole a atenção e o tempo. Agostinho via nisso a fraqueza da carne contra a graça: onde está a atenção, ali está aquilo que se ama, junto à curiosidade que nos arrasta para a “Cidade dos Homens”, onde o prazer é efêmero e destruidor.
Mas Deus, imutável e repouso eterno, chama de volta: “Tu és mais interior do que o meu mais íntimo” (Confissões, III, 6). Resistir ao espetáculo não é censura, é liberdade.
Nesse mesmo horizonte, vendem-nos a ideia de que o vazio existencial se resolve com mais consumo, séries, suplementos, experiências “instagramáveis”.
Agostinho já via isso nos teatros e circos romanos. Para ele, o problema não era o prazer em si, mas idolatrá-lo. O filósofo não era alheio aos vícios do entretenimento que nos escravizam.
Em suas “Confissões”, conta a história de seu amigo Alípio, que detestava os jogos de gladiadores, aqueles circos romanos onde a morte era espetáculo, cruel e abominável.
Amigos o arrastaram ao anfiteatro, e ele resistiu: “Embora arrasteis meu corpo, podereis forçar minha mente e meus olhos a esses espetáculos? Estarei ausente, vencendo-vos a vós e ao espetáculo.” Fechou os olhos, determinado.
Mas o rugido da multidão ao ver um gladiador cair venceu a curiosidade. Alípio abriu os olhos, viu o sangue e, como descreve Agostinho, “bebeu a loucura com os olhos, deleitou-se na luta criminosa e embebedou-se no prazer funesto”, e desse modo não conseguiu mais parar de olhar (“Confissões”, VII, 8).
Agostinho, que faz filosofia a partir de seus próprios problemas, formou-se em um contexto marcado por grande diversidade de concepções de Deus: tradições politeístas e monoteístas, correntes materialistas e espiritualistas.
Foi nesse embate profuso de pensamentos que se aproximou do maniqueísmo e do materialismo, nos anos que antecederam sua conversão.
No entanto, como ele próprio relata, foi a leitura dos “certos livros platônicos” (“Confissões”, VII, 1) que lhe permitiu compreender Deus segundo uma nova concepção.
Deus revela-se então como luz da própria Verdade, imaterial, eterno, onipresente e indivisível, distinto de qualquer outra realidade. Ele é a fonte imaterial de toda verdade e atrai todas as coisas para si.
Agostinho passa a compreender Deus como o próprio ser e a própria verdade, idêntico à fonte de toda existência.
Por isso pode dizer de si mesmo: “se não permanecer nele, também não poderei permanecer em mim” (“Confissões”, VII, 17), reconhecendo, assim, a relação fundamental entre a alma humana e Deus.
Logo no início das ‘Confissões’, Agostinho formula a inquietação humana em termos que atravessaram os séculos: ‘Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti’
Essa concepção agostiniana afirma que Deus é Ser, e esse Ser é verdadeiramente simples; por isso, todos os predicativos nele coincidem.
Em Deus, ser é o mesmo que ser sábio ou justo, pois sua existência é perfeita e fonte de toda bondade (Trindade, VI, 6). No entanto, embora possamos e devamos buscar a compreensão desse Ser simples, o autor reconhece que só nos é dado compreender com maior clareza aquilo que Deus não é. A percepção de quem Ele é permanece envolta em dificuldade. Além disso, não se pode esquecer que Agostinho segue a tradição cristã, e sua reflexão sobre Deus é sempre uma reflexão trinitária, que faz uso de nomes, títulos e metáforas de origem majoritariamente bíblica.
Logo no início das “Confissões”, Agostinho formula a inquietação humana em termos que atravessaram os séculos: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti” (Conf. I, 1). Não se trata de uma afirmação piedosa, mas de um diagnóstico filosófico: o coração inquieto revela que algo foi elevado indevidamente à condição de absoluto e, por isso mesmo, é incapaz de sustentar o desejo humano. Ao narrar sua busca fora de si — no reconhecimento, no prazer e no sucesso intelectual — Agostinho mostra que o erro não está em desejar essas coisas, mas em exigir delas aquilo que não podem oferecer.
Deus não aparece como concorrente do mundo, mas como o nome do limite que expõe sua insuficiência. Por isso ele pode afirmar que buscava fora aquilo que sempre habitara dentro: “Estavas dentro de mim, e eu fora; e fora te buscava” (“Confissões” X, 27, 38).
Essa desordem do desejo, contudo, não permanece restrita à interioridade. Quando se torna critério de organização da vida comum, ela passa a estruturar também as formas de convivência social. É nesse horizonte que, em “A Cidade de Deus”, Agostinho distingue duas cidades: a dos homens, fundada no amor-próprio levado até o desprezo de Deus, e a Cidade de Deus, fundada no amor a Deus levado até o desprezo de si.
A primeira se manifesta em impérios que exploram, mercados que concentram riqueza e políticas que dividem para governar; a segunda se constrói na justiça, na partilha e na recusa de fazer do próximo um meio. Não se trata de duas sociedades separadas no espaço ou no tempo, mas de dois modos distintos de ordenar o amor.
É precisamente essa ordem — ou desordem — do amor que Agostinho esclarece ao distinguir o uso legítimo das coisas (uti) da fruição última (frui). Somente Deus pode ser fruído por si mesmo; tudo o mais deve ser usado sem que se transforme em finalidade última. Quando essa distinção se perde, instala-se a desordem do amor — aquilo que ele chama de amor perversus, o amor que se apega ao que passa como se fosse definitivo (De doctrina christiana I, 4).
Essa inversão não é apenas moral, é social. Uma sociedade que transforma sucesso, produtividade ou reconhecimento em critérios últimos de valor exige dos indivíduos uma devoção constante e cobra um preço alto por ela. O resultado não é plenitude, mas exaustão. Quando o provisório assume a função de absoluto, o desejo se desgasta tentando sustentar aquilo que não pode repousá-lo.
Enquanto nossas identidades digitais se reinventam a cada storie, economias sobem e despencam, corpos envelhecem e regimes caem, algo permanece. Não acompanha ciclos, não se adapta às demandas do tempo, não se submete à lógica da substituição. É essa permanência que nos desconcerta. Uma sociedade obcecada pela novidade aprende a contornar o eterno, porque ele não se deixa atualizar nem gerir.
Agostinho não propõe fuga do mundo, mas conversão do olhar. Deus não é um conceito para enfeitar discursos ocasionais, mas o fundamento que dá medida à vida e sentido à busca do Bem. Pensar Deus, nesse horizonte, basta deslocar o eixo da orientação, impedindo que o provisório se apresente como definitivo.
Como referência última, Deus funciona como um critério silencioso capaz de revelar quando algo finito passou a ocupar o lugar do absoluto. O problema não está na multiplicidade de bens que orientam a vida social, mas na pretensão de que algum deles possa, sozinho, sustentar o peso do sentido. Nesse horizonte, Deus não aparece como rival desses bens, mas como aquilo que os relativiza. A crítica agostiniana não exige fuga do mundo, mas resistência a toda forma de absolutização do provisório
Talvez a pergunta não seja se ainda acreditamos em Deus, mas em quantos deuses já acreditamos sem perceber. Aquilo que organiza nossas escolhas, exige nossa fidelidade e cobra de nós devoção cotidiana — ainda que sem nome religioso — diz mais sobre o que realmente nos orienta do que as palavras que usamos para nos definir.
Pensar Deus pode ser um exercício de lucidez, reconhecer o que nos governa e reaprender a distinguir aquilo que usamos daquilo diante do qual, sem perceber, nos ajoelhamos.
Ana Kelly Souto, doutora em Ciências da Religião e professora da PUC-Goiás, é colaboradora do Jornal Opção.
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