O Bairro Dom Antônio Barbosa, um dos mais populosos de Campo Grande, cresceu sobre a área onde funcionou o antigo lixão da cidade, desativado em 2016. Mesmo após o encerramento da atividade, a reciclagem segue como base de sustento para dezenas de famílias e como elemento central da dinâmica social e econômica da região. Uma das entradas do bairro, pelo anel viário da BR-262, ainda carrega marcas desse passado. Quem passa pelo local percebe o cheiro de lixo, associado à presença da concessionária responsável pela limpeza urbana de Campo Grande instalada na região. Esse odor não está dissociado da história do Dom Antônio. O bairro nasceu a partir do antigo lixão e, mesmo após a desativação, o espaço ainda influencia a forma como muitas famílias garantem renda. É o que explica o comerciante Luís Henrique Furlan, de 44 anos, que mantém um ponto de troca de materiais recicláveis na Rua Adelaíde Maia Figueiredo. No local, cerca de 20 pessoas por dia trocam recicláveis por dinheiro. “A reciclagem foi o pioneiro do bairro, esse bairro começou pela reciclagem”, afirma. Luís trabalha com reciclagem desde a infância, já que os pais mantinham um depósito. Há 20 anos com o próprio ponto, ele afirma receber, em média, uma tonelada de resíduos por dia. Segundo o comerciante, a atividade sustenta famílias e ajuda a afastar pessoas da violência e das drogas, problemas que ainda estigmatizam o bairro. Leitor assíduo do Campo Grande News, ele relembra que, quando o lixão ainda funcionava, recebia cerca de dez toneladas de material por dia. “O lixão dava muito emprego, muita renda”, afirma. Embora desativado, o legado da atividade permanece. A partir da própria experiência, Luís diz ter presenciado mudanças de vida viabilizadas pelo dinheiro obtido com a reciclagem. Para ele, “reciclagem é o futuro. Um catador de reciclagem faz mais pelo meio ambiente do que o ministro do Meio Ambiente. Aqui a economia gira, tem muita gente que quer crescer”. No Dom Antônio, a reciclagem não se limita a um único ponto. Elias Machado, de 55 anos, conhecido como Seu Elias, também mantém um comércio de troca de materiais recicláveis em uma das esquinas da Rua Evelina Figueiredo Selingardi. Assim como Luís, ele está há 20 anos no ramo e relata atender, em média, 20 pessoas por dia. Há 30 anos trabalhando na região, Elias avalia que a limpeza da cidade depende diretamente da atuação dos catadores. Para ele, a reciclagem também teve papel importante na redução da criminalidade. “Acaba se tornando uma fonte de renda para a pessoa.” Atualmente, ele emprega cerca de dez funcionários. Além da reciclagem, o bairro também abriga iniciativas sociais voltadas à infância e à família. Entre elas está o Instituto Misericordes, que atua com crianças e moradores da região do Aterro Sanitário. A assistente social do projeto, Rosely Aparecida Souza, de 45 anos, afirma que atualmente o instituto atende 68 crianças de seis a 15 anos em situação de vulnerabilidade, sendo que a maior parte, 26 delas, é moradora do Dom Antônio. As crianças frequentam o local no período matutino e participam de aulas de balé, badminton e outras atividades esportivas e recreativas. Também recebem apoio escolar, participam de atividades de leitura, escrita, rodas de conversa e ações de comunicação, como uma rádio interna. O projeto inclui ainda oficinas de educação financeira, nas quais as crianças lidam com dinheiro real. Segundo Rosely, iniciativas como essa ajudam a garantir segurança, alimentação, apoio psicológico e bem-estar às crianças, além de fortalecer vínculos comunitários. “Aí você vê a importância do instituto na vida da criança. Aqui ela não fica na rua, na violência. Principalmente em época de frio, nós temos como colocar um casaco nelas, um calçado”, relata. Morador do bairro, Honório Alcantara, conhecido como Rubinho, de 52 anos, é presidente da Associação de Moradores do Dom Antônio. Ele reconhece os problemas enfrentados pela região, mas destaca avanços obtidos nos últimos anos e defende a continuidade das melhorias. Entre os avanços, Rubinho cita a ampliação do saneamento básico para cerca de seis mil pessoas, a criação de uma avenida gastronômica, a geração de empregos com novos empreendimentos, além de cursos de computação e aulas de futebol profissional. Ele também destaca o fortalecimento do sentimento de pertencimento no bairro, que chama de “bairrismo”, ao afirmar que moradores conseguem resolver grande parte da rotina sem sair da região. Rubinho reconhece a importância da reciclagem e das iniciativas sociais, mas avalia que a realidade poderia ser diferente com maior atuação do poder público. “A criminalidade é associada a uma situação de periferia. Quase todos os centros periféricos, os bairros mais afastados da área central, têm essa dificuldade. Eu gostaria que o setor público fosse mais eficaz”, afirma. Com origem ligada ao antigo lixão, o Dom Antônio Barbosa construiu uma realidade marcada pela atuação dos próprios moradores. Entre estigmas do passado e desafios ainda presentes, o bairro mantém uma dinâmica baseada na reciclagem, em redes de apoio social e no sentimento de pertencimento de quem escolheu permanecer e investir no lugar onde vive. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .