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Na periferia de Campo Grande, distância do mercado molda o que vai ao prato

Campo Grande tem 130,92 mil pessoas vivendo em áreas classificadas como desertos alimentares, locais onde o acesso a alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras, é escasso ou inexistente. Desse total, 18,13 mil estão em situação de pobreza, 1.272 vivem em favelas ou comunidades urbanas e 33,59 mil têm renda per capita inferior a meio salário mínimo. Os dados constam no painel da Plataforma Alimenta Cidades, do MDS (Ministério do Desenvolvimento Social, Família e Combate à Fome). O cenário confirma o que técnicos da saúde já observam na prática. Para o gerente de Alimentação e Nutrição da SES (Secretaria Estadual de Saúde), Anderson Holsbach, a obesidade deixou de ser apenas uma questão individual e passou a ser um problema de ambiente. “A gente cresceu numa sociedade que joga a culpa da obesidade para o indivíduo, como se fosse falta de controle ou preguiça. Mas não é assim. A obesidade é um problema do ambiente”, afirma. Segundo ele, Mato Grosso do Sul segue a tendência nacional e mundial de aumento do excesso de peso, que inclui sobrepeso e todos os graus de obesidade. O monitoramento é feito a partir de dados coletados no SUS (Sistema Único de Saúde), por meio do SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), além de pesquisas como o Vigitel. “Quando a pessoa vai à unidade básica, são coletados peso e altura, isso gera relatórios e a gente acompanha. Os dados mostram que essa tendência só cresce, e reverter isso é muito complexo”, explica. A dificuldade não está apenas na escolha alimentar, mas na ausência de opções. Anderson explica que o conceito de deserto alimentar se refere a territórios onde o alimento saudável simplesmente não chega, enquanto o pântano alimentar é marcado pela oferta massiva de ultraprocessados. “Se você observar o caminho da sua casa até o trabalho, quantos lugares vendem fruta, legumes ou suco natural? São poucos. Mas alimento industrializado você encontra em qualquer lugar”, diz. Esse desequilíbrio ficou evidente em 2024, quando o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome lançou o mapeamento nacional dos desertos e pântanos alimentares. Campo Grande foi incluída por ter mais de 300 mil habitantes, e o resultado mostrou maior concentração desses territórios nas regiões periféricas. No Jardim Noroeste, um dos bairros identificados no painel, a realidade confirma os números. Em uma pequena propriedade, o aposentado Sebastião Damião da Costa, de 68 anos, mantém uma horta com alface, rúcula e cebolinha. Ele também acabou de colher melancias. A produção é limitada, segundo ele, porque o solo é muito seco. “A gente planta porque eu também gosto. É mais fácil do que comprar. A gente cria galinha , mas tudo ajuda. Se eu sentir fome agora, de comer alguma fruta ou alguma coisa rápida, eu como aqui em casa. Prefiro me manter com o que a gente produz aqui mesmo”, relata. O mercado mais próximo fica longe, o que faz com que as idas para compras sejam esporádicas. A horta, nesse caso, não é apenas uma opção saudável, mas uma estratégia de sobrevivência. Na Aldeia Urbana Água Funda, área classificada como favela urbana pelo painel federal, a dona de casa Jania Felipe, de 33 anos, cuida sozinha dos cinco filhos. Às 16h, uma das crianças “lancha” arroz, feijão e pedaços de frango, servidos em uma vasilha reaproveitada de margarina. “A gente tem que ir a pé. Muita gente não tem carro. Até o ponto de ônibus é longe. Acho que precisa, sim, de venda de legumes, frutas e verduras mais perto da nossa casa. Nunca falaram disso com a gente. É do jeito que está mesmo e assim que a gente vive”, conta. Para Anderson Holsbach, esse cenário amplia desigualdades já existentes. “Você sobrepõe problemas como habitação, saneamento básico e renda, e ainda coloca um ambiente onde o alimento saudável não chega. Essa população fica ainda mais vulnerabilizada”, afirma. Morador da mesma região, o mecânico Tiago Rogério de Souza, de 45 anos, vive com a filha e descreve uma rotina moldada pela distância e pelo preço dos alimentos. “Aqui para baixo não tem nada. Quem quer ter alguma coisa tem que plantar por conta própria. Para ir até uma horta, são três ou quatro quilômetros. Durante a semana, a gente compra marmita. É mais prático”, relata. Segundo ele, até para preparar as refeições do fim de semana é preciso percorrer cerca de dois quilômetros e meio. Fruta, então, vira artigo raro. “Comprando marmita, a gente acaba não tendo fruta para um lanche da tarde. Se sentir fome às quatro da tarde, tenho que sair para comprar pão, presunto, mussarela. Aqui não tem nada para resolver na hora”, diz. Tiago também aponta o custo mais alto nos comércios locais. “Um ovo chega a custar dois reais e cinquenta. Uma Coca custa quinze. Lá em cima, é dez. Isso acaba sendo uma forma de extorsão,” afirma. Para o gerente da SES, culpar o indivíduo é uma saída fácil, mas ineficaz. “Existe uma parcela de responsabilidade pessoal, claro, mas não dá para colocar tudo na conta da pessoa. A obesidade é um problema de saúde pública e precisa ser tratada como tal”, defende. Anderson lembra que, embora pesquisas mostrem redução da insegurança alimentar no país e um cenário relativamente melhor em Mato Grosso do Sul, isso não se traduz imediatamente em alimentação de qualidade. “Hoje é mais barato colocar refrigerante na mesa do que um suco natural. O refrigerante é prático, dura o mês inteiro. Já o suco exige tempo, dinheiro e preparo,” exemplifica. Segundo o nutricionista, políticas públicas como a regulação de ambientes escolares e o imposto seletivo sobre bebidas açucaradas são avanços, mas ainda insuficientes diante da dimensão do problema. “A gente precisa quebrar o paradigma da gordofobia e parar de culpabilizar a pessoa. Melhorar o ambiente alimentar é essencial para reduzir os índices de obesidade e garantir o direito humano à alimentação adequada,” conclui.

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