Abecedário de Agostinho de Hipona: quando o ridículo é recusar o invisível
Ana Kelly Souto
Especial para o Jornal Opção
F de Fé
Depois do amor, do belo, da confissão e de Deus, a letra F chega com certo desconforto. F de fé. Palavra que, em tempos de gráficos coloridos e evidências mensuráveis, costuma produzir dois efeitos: ou é usada como muleta para justificar o que não se quer pensar, ou é descartada como herança mal digerida de um pensamento fraco, incapaz de sustentar-se racionalmente. Em ambos os casos, a fé é julgada antes mesmo de ser compreendida.
Agostinho de Hipona conhecia bem essa objeção. No tratado “A fé nas coisas que não se veem”, ele responde à acusação de que a religião cristã seria risível justamente por exigir adesão ao invisível. Escreve ele: “Há alguns que consideram ser a religião cristã antes objeto de ridículo do que de adesão, porque o que ela mostra não são as coisas visíveis, mas manda que os homens tenham fé naquilo que vai além de sua visão” (De fide rerum invisibilium).
Crer no invisível: objeção antiga, problema atual
À primeira vista, a crítica parece sensata. Por que acreditar no que não se vê? Não seria esse o caminho mais curto para o engano? Agostinho, no entanto, desloca o problema. Ele não tenta provar o invisível — tarefa impossível —, mas mostra algo mais perturbador: viver sem confiar no invisível é simplesmente inviável.
Se só fosse legítimo acreditar no que se vê, a vida cotidiana entraria em colapso. Não haveria amizade, porque ninguém enxerga a lealdade do outro. Não haveria amor, porque não se mede a permanência do afeto. A convivência humana inteira se apoia num tecido invisível de confiança que antecede qualquer verificação.
É por isso que Agostinho formula uma pergunta desconcertante ao leitor:
“Rogo-te, com que olhos vês a boa disposição de teus amigos para contigo? Deveras, nenhuma boa disposição podes ver com os olhos do corpo” (De fide rerum invisibilium).
A amizade é invisível. O amor é invisível. A honestidade do motorista de aplicativo é invisível. E, no entanto, ninguém exige um exame da alma antes de confiar um segredo ou entrar no carro. Fazemos exatamente o oposto: confiamos primeiro — e só depois confirmamos, ou não, a aposta. A fé precede a prova; muitas vezes, é ela que a torna possível.
Se fôssemos coerentes com o ceticismo radical, precisaríamos dissolver amizades, casamentos, salas de aula e qualquer forma de vida social. Um mundo onde só se acredita no visível não é mais racional; é apenas estéril.
O paradoxo moderno da confiança seletiva
O paradoxo contemporâneo é evidente. O mesmo mundo que ironiza a fé religiosa constrói impérios inteiros sobre atos contínuos de confiança. Confiamos que o algoritmo não nos manipula, que a notícia viral é verdadeira, que o médico leu corretamente o exame. Vivemos confiando — ainda que finjamos não perceber.
Elon Musk costuma mencionar leituras decisivas de sua juventude, como Tolkien e Asimov. Antes de foguetes, havia imaginação. Antes de Marte, havia aposta. Toda startup é, no fundo, um ato de fé: investir tempo, dinheiro e energia em algo que ainda não existe. A diferença entre essa fé e a fé agostiniana não está na estrutura, mas no objeto. Um aposta no futuro tecnológico; o outro, em Deus. Ambos sabem que sem confiar no invisível nada grande começa.
Esse raciocínio torna-se ainda mais claro no campo da educação. A relação entre professor e aluno nasce de um ato silencioso de fé mútua. O aluno acredita que aquele professor tem algo a oferecer; o professor acredita que aqueles alunos são capazes de aprender. Não há prova empírica disso no primeiro dia de aula. Há apenas a aposta. Como observa Silvia Contaldo, a educação é um dos lugares onde a fé no invisível se torna decisiva: aposta-se antes de ver, e quando dá certo, o invisível vira história (Cor inquietum, 2025).
Agostinho não está defendendo uma fé irracional. Está lembrando algo elementar: a razão mais rigorosa ainda precisa, para caminhar, de uma dose mínima de confiança no que ela não controla. Por isso, fé e razão não são inimigas naturais. Ambas erram, revisam, avançam no tempo. O problema surge quando uma se absolutiza. Quando a fé se transforma em slogan, empobrece. Quando a razão se imagina autossuficiente, endurece.
Fé e razão: não inimigas, mas incompletas
A verdadeira oposição não é entre fé e ciência, mas entre abertura e fechamento. Agostinho sabia disso: errar não é o contrário de conhecer; é parte do caminho de quem busca a verdade sem se confundir com ela.
No fim, A fé nas coisas que não se veem inverte o argumento dos que ridicularizam a fé. Não é a fé que ameaça a razão; é a recusa da fé que desorganiza a vida humana. Crer no invisível não é defeito do pensamento, mas condição da convivência. Confiamos antes de ver, acreditamos antes de comprovar, apostamos antes de ter certeza — não por ingenuidade, mas porque viver exige essa abertura.
Talvez seja esse o verdadeiro desconforto da letra F. Vivemos exigindo provas absolutas enquanto praticamos atos contínuos de fé disfarçada. Agostinho diria, com desconcertante simplicidade: crê-se para compreender. Quem se recusa a esse risco não se torna mais racional — apenas fecha, por princípio, a porta do entendimento.
Ana Kelly Souto, é doutora em Ciências da religião, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.
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