No Japão, Inami é o nome de uma cidade independente e de um distrito cercado por montanhas, famoso pelas esculturas de madeira feitas por artesãos locais. É também uma fabricante de produtos médicos e oftalmológicos que existe há quase 130 anos e carrega o sobrenome de seu fundador. Do outro lado do mundo, Wilson, um jovem descendente de japoneses da região de Naichi, conheceu a marca e ficou com ela em mente. Comprou um lensômetro e um pupilômetro da Inami, usados em óticas, embora não tivesse uma. Ele trabalhava com os pais numa fazenda localizada entre Campo Grande e Terenos, e havia aprendido com o tio tudo o que é preciso saber sobre óculos de grau. O conhecimento compartilhado fez o sobrinho enxergar longe. Ainda jovem, escondeu os dois aparelhos comprados embaixo da cama e fez disso um voto de fé para realizar o desejo de ter uma loja. A namorada, Cristina Kazue, os encontrou por acaso e perguntou para que serviam. Ele revelou o que planejava. “O Wilson me falou assim: ‘meu sonho é ter uma ótica e os primeiros equipamentos obrigatórios eu já tenho’. Isso me marcou bastante e nos conectou”, ela relembra. Escolheram ficar Após casados, Wilson sugeriu à Cristina que mudassem do Brasil para o Japão para trabalhar e juntar dinheiro por alguns anos. Voltariam à terra natal quando tivessem o suficiente para abrirem a sonhada loja e viver bem. Mas a esposa não quis. "Eu falei que não, com tão pouco tempo de casada, não iria. A mãe dele não queria que ele fosse também, conversou com o pai e isso foi o pontapé inicial para a gente achar um ponto comercial em Campo Grande e receber ajuda da família dele para começar", conta. O imóvel era pequeno, quase um corredor, e ficava na Rua 13 de Maio, no Centro de Campo Grande, ao lado do Hotel Jandaia. Foi lá que Wilson montou a ótica Inami e colocou as primeiras mercadorias, há 34 anos. Óculos de grau e solar, além de relógios foram os primeiros produtos. O casal dividia as tarefas e contratou um funcionário para ajudar com a demanda. Dificuldades Então sócios, Wilson e Cristina precisaram ajustar a relação logo no início para evitar conflitos. Os primeiros começaram a aparecer e a solução foi redefinir quem fazia o quê dentro da ótica. Também concordaram que deveriam se comunicar mais sobre as responsabilidades assumidas por cada um. Wilson era bom em atender os clientes e sempre teve talento para isso, afirma a esposa. Já ela gostava de cuidar da parte mais burocrática, que envolvia as duplicatas das mercadorias, o caixa e a gestão do funcionário. O que o casal fazia junto era escolher os modelos dos óculos e relógios que seriam vendidos. As vendas andaram devagar nos primeiros anos. Os donos da Inami chegaram a dividir refeições para economizar. O início foi tão difícil que nós rachamos PF (prato feito) por cinco anos", recorda Cristina. "Ninguém queria emprestar dinheiro para a gente e não teve empréstimo de banco nenhum. Naquela época não era fácil como hoje", compara. De porta em porta e ouro A ideia de levar os produtos para vender de porta em porta nos outros comércios e residências do Centro foi o que ajudou a melhorar o caixa da loja. Outra decisão importante foi começar a vender joias em ouro, principalmente alianças, numa época em que o metal tinha um preço estável e atrativo para os lojistas. Cupim e mudanças O negócio ia bem, até que um novo problema surgiu: uma colônia de cupins foi descoberta no primeiro andar do prédio, que era alugado. "Faltavam poucos dias para Natal e a gente incomodado com um trinco na parede. Pedimos para um colega ver como estava lá em cima e ele voltou falando: 'gente, tem cupim comendo a estrutura da loja!'. Chamamos o dono do prédio e ouvimos que poderíamos ficar ali até passar o Natal que não aconteceria nada", relata Cristina. Wilson não quis ficar. Resolveu mudar o endereço da loja no dia seguinte. O outro imóvel encontrado ficava do outro lado da rua e foi alugado sem contrato no início, apenas com a confiança da proprietária. Conseguiram ajudantes e, durante a noite, transportaram os móveis e mercadorias em poucas horas. A mudança do espaço tradicional passou a impressão de que a ótica estava quebrando, mas a queda de uma parede na loja antiga convenceu que a questão era outra. Nova fase O negócio se expandiu e era preciso mais espaço. O casal chegou a cogitar alugar dois imóveis diferentes, mas nenhum atendia às expectativas. Um terceiro fez brilhar os olhos do casal e ficava na Rua Antônio Maria Coelho, onde a Inami segue até hoje. Agora, o prédio é próprio. Há um ano, a loja passou por uma reforma assinada por uma arquiteta de Amsterdã, na Holanda, e mudou de patamar, mas mantendo o conceito e a tradição no segmento conquistada lá atrás. "Nós fomos ficando muito respeitados como ótica independente. Temos indicações de médicos e produtos de alta qualidade, priorizamos originais, boas lentes e boas marcas, sempre trazendo o melhor do mercado", afirma Cristina. O número de funcionários hoje é sete. Ainda assim, Wilson continua fazendo questão de conhecer cada cliente e fechar as vendas pessoalmente. Cristina faz formações em outros Estados para entender mais sobre a parte administrativa e de marketing. A reação dos clientes ao pegar um óculos novo é o que continua emocionando o casal igual ao passado. Outras emoções são até mais fortes, como o dia que viram uma pessoa daltônica chorar por poder usar lentes corretivas ou quando percebem a alegria de uma criança que começa a enxergar mais nítido e mais colorido. Wilson reforça a gratidão pelo tio. "Hoje somos concorrentes saudáveis, mas sempre agradeço. Ele ensinou tudo o que eu sei e eu agarrei essa oportunidade", finaliza.