FGR, empresa de marido de Ana Paula Rezende, vice de Wilder Morais, é acusada de grilar terra em Goiânia
A FGR Construtora S/A, uma das principais incorporadoras imobiliárias de Goiás, e a Flamboyant Urbanismo Ltda. são alvos de uma ação judicial que aponta suposta “grilagem” de parte da tradicional Fazenda Botafogo, em Goiânia. A FGR tem entre seus três sócios Frederico Peixoto Craveiro, marido de Ana Paula Rezende, recém filiada ao PL do senador Wilder Morais e apontada como possível candidata a vice em sua chapa. Os outros sócios da FGR são Guilherme Peixoto Craveiro e Rodolfo Dafico de Oliveira.
A Flamboyant Urbanismo, procurada pelo Jornal Opção, disse, por meio de um advogado, que não vai se manifestar. A reportagem ligou para a FGR na terça-feira, 24, e foi atendida pela secretária Isabela. Ela pediu para o repórter enviar um e-mail, que foi enviado, explicando o motivo do contato. A FGR não se manifestou. O espaço permanece aberto para qualquer manifestação tanto da Flamboyant Urbanismo quanto da FGR.
No processo [veja ao final da reportagem], que tramita na 2ª Vara da Fazenda Pública Municipal e de Registros Públicos de Goiânia, um grupo de empresas e particulares alega que áreas históricas da Fazenda Botafogo teriam sido indevidamente apropriadas e registradas como pertencentes à Fazenda Gameleira, o que, na prática, teria viabilizado a implantação de empreendimentos de alto padrão na região do Parque Flamboyant.
Entre os autores estão Youpag Soluções em Pagamentos S/A, Blackrock Empreendimentos e Participações Ltda., TXP Participações Ltda., HM Despachante e Empreendimentos Imobiliários Ltda, Bier ME Distribuidora e Conveniência de Bebidas Ltda., além de pessoas físicas que afirmam ser cessionárias de direitos hereditários sobre parte da Fazenda Botafogo.
A área questionada inclui trechos onde estão instalados o Shopping Flamboyant, ao menos seis condomínios de luxo e glebas ainda não edificadas — região considerada uma das mais valorizadas da capital.
Origem da disputa
Segundo a petição inicial, os requerentes adquiriram, por escritura pública lavrada em maio de 2022, parte remanescente do quinhão de terras da Fazenda Botafogo, imóvel registrado desde 1939 na 3ª Circunscrição de Registro de Imóveis de Goiânia.
De acordo com os autos, a fazenda teve origem na partilha de bens de Moisés Rodrigues de Morais, sendo posteriormente herdada por Leontina de Moraes e seus sucessores. Após a aquisição dos direitos hereditários, dois levantamentos técnicos teriam identificado inconsistências na delimitação e no registro das áreas.
Laudos apontam sobreposição e possível fraude
O primeiro levantamento, elaborado por profissional de cartografia, concluiu que parcelamentos e loteamentos teriam sido aprovados dentro do perímetro reconstituído da Fazenda Botafogo, mas registrados como pertencentes à Fazenda Gameleira. Entre os exemplos citados estão áreas do Jardim Londres, Jardim Itália, Residencial Jardins Munique, Jardim Goiás Extensão e trechos da área do Shopping Flamboyant.
Já o segundo laudo, elaborado pelo Instituto Goiano de Perícias (IGP), aponta possível adulteração documental em processo de partilha. Conforme a perícia grafotécnica, a expressão “do S. Antonio” teria sido raspada mecanicamente e substituída por “da Gameleira”, alteração que, segundo os autores, teria potencial para deslocar a interpretação dos limites das glebas herdadas.
Para os requerentes, a suposta adulteração contribuiu para consolidar registros imobiliários que originalmente integrariam a Fazenda Botafogo.
Pedido de perícia judicial
Antes de ingressar com ação de nulidade de registros, os autores pediram a realização de prova pericial judicial para confirmar os indícios apontados nos laudos particulares. Alegam que parte do imóvel teria sido apropriada indevidamente “em conluio” entre empresas, cartório e municipalidade, tese que ainda será analisada pelo Judiciário.
O valor atribuído à causa é de R$ 10 mil, para efeitos fiscais.
“Pelo que constatamos, houve grilagem”, diz advogado
O advogado Hélio Garcia disse ao Jornal Opção que passou a atuar no caso ao assumir o inventário do espólio de Leontina de Moraes.
“Inicialmente, eu era advogado do espólio da dona Leontina. Comecei a fazer o inventário e surgiram outras áreas para serem inventariadas. A família não tinha condições financeiras”, declarou.
Segundo o advogado, os herdeiros optaram por ceder parte dos direitos. “As áreas foram cedidas e, posteriormente, essa outra área foi transferida ao senhor Antônio Castro Lima Filho.”
Hélio Garcia sustenta que houve ampliação indevida de áreas ao longo das décadas. “Pelo que constatamos, eles tinham uma área perto do Flamboyant, mas foram se apropriando, com o tempo, de parte da Fazenda Botafogo, que era dos herdeiros Moraes.”
Sobre a acusação de grilagem, Hélio Garcia foi direto: “Pelo que constatamos da documentação, sim.”
Ele afirma ainda que há indícios de invasão de imóveis e adulteração documental. “Houve invasão de áreas e adulteração de documentos em processos e escrituras. A juíza deferiu perícia grafotécnica.”
Empresário fala em “apropriação indevida”
O empresário Antônio Castro Lima Filho disse ao Jornal Opção que detém mais de 90% dos direitos hereditários da antiga Fazenda Botafogo e acusa diretamente o Grupo Flamboyant e a FGR.
“Foram seis condomínios construídos dentro da área da Fazenda Botafogo, que foi inserida como se fosse remanescente de outra fazenda. Eles se apropriaram indevidamente dessas terras”, declara o empresário Antônio Castro Filho.
De acordo com o empresário, a fazenda possuía originalmente 1.502 hectares, mas hoje constariam menos de 500 hectares nos registros municipais.
“Ainda existem cerca de 1,9 milhão de metros quadrados sem construção. O que não foi construído eu pretendo recuperar. O que já foi construído, vamos pleitear indenização”, sustenta Antônio Castro Filho.
Antônio Castro Filho afirma que a perícia judicial foi autorizada, mas suspensa sucessivamente por recursos. “Todas as vezes que a perícia foi autorizada, um dia antes conseguem uma liminar suspendendo. Isso já se arrasta há quase quatro anos.”
Sobre eventual indenização, Antônio Castro Filho assinala que se trata de “valor astronômico”, considerando que a área envolve “o metro quadrado mais caro de Goiânia”.
Herdeira confirma venda e fala em invasão
Pétala do Valle Carvalho, bisneta de Leontina de Moraes, confirmou que a família vendeu os direitos hereditários a Antônio Castro Filho.
“A família não tinha condições financeiras de arcar com a demanda. Nós fomos procurados pelo Antônio, e ele comprou o nosso direito de herança”, afirma Pétala do Valle Carvalho.
Segundo Pétala do Valle Carvalho, a área já estava ocupada à época da cessão. “Já estava invadida pelo pessoal citado no processo.”
Ao comentar a atuação das empresas, Pétala do Valle Carvalho afirma: “É uma terra que é nossa e está sendo invadida por eles”.
Processo segue no tribunal
A perícia judicial chegou a ser autorizada, mas está suspensa após recursos interpostos pelas partes rés. O caso agora aguarda análise em segunda instância. Enquanto a disputa judicial se arrasta, a controvérsia envolve uma das regiões mais valorizadas de Goiânia e atinge diretamente um dos principais grupos do mercado imobiliário goiano.
Veja trechos do processo abaixo:
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