O homem que comia sardinha e arrotava caviar
O cotidiano é o solo fértil da crônica. É de lá que ela brota, entre passos apressados, frases jogadas ao vento e pequenos espetáculos da vida comum. O difícil não é encontrá-la, mas reconhecê-la. É preciso faro de escriba para colhê-la no momento certo e, sobretudo, temperá-la com salpicos de poesia. Eu sei dessas coisas (ou pelo menos gosto de acreditar que sei) embora ainda me atrapalhe na construção das minhas, que prefiro chamar de croniquinhas.
Esta nasceu de repente. Bastou um detalhe solto no ar. Eu estava sentado numa mesa com Iara Arcanjo, amiga recente que conheci nas redes sociais e com quem resolvi romper a barreira da relação virtual. Começamos bem a nossa amizade. Conversávamos tranquilamente quando percebi dois homens na mesa ao lado. Falavam sobre um terceiro, que estava ausente no bar. Geralmente é assim: a ausência do protagonista nas conversas alheias sempre torna a maledicência mais apimentada.
Os dois me pareceram quarentões. Em determinado momento, um deles soltou a frase que atraiu a minha atenção e me fez abrir mais os ouvidos: disse que o sujeito ausente é uma pessoa que “come sardinha e arrota caviar”. O outro riu. Eu também ri por dentro, porque a imagem é perfeita. Gente comendo sardinha e arrotando caviar, sabe bem você, altaneiro leitor, há demais por aí.
Expressões populares têm esse poder: dizem muito com bem poucas palavras. Em meia dúzia de palavras, desenham um retrato perfeito. Ali estava descrito um tipo humano bastante conhecido: o sujeito que se imagina mais importante do que realmente é. No fundo de comportamentos assim, mora uma velha conhecida da moral cristã: a soberba, que tem parentesco umbilical com a vaidade. Arrisco dizer que são irmãs siamesas. E a soberba está entre os sete pecados capitais. É o primeiro deles, em segundo vem a avareza, que é um cofre sem fundo. Exemplo de cofre sem fundo temos no caso do Banco Master, nome, conforme estamos vendo, que tem muito pod(r)er. Estou achando que até o porteiro do meu prédio está no celular do Daniel Vorcaro, dentro do grupo de whatsapp “A Turma”.
Sempre gostei dessas pequenas peças de sabedoria que circulam pela boca do povo. Também aprecio muito os provérbios. Há um, atribuído aos turcos, que considero especialmente afiado: “A floresta estava encolhendo, mas as árvores continuavam votando no Machado, porque o Machado, muito esperto, convenceu as árvores de que, por ter o cabo de madeira, era uma delas.” Não sei se o provérbio é realmente turco, mas sei que continua atual. No terreno político, então, ele viceja com facilidade em nossa república de bananas nanicas já bem maduras. O que não falta é político dizendo que é povo, mas que, depois de eleito, trata o povo com a delicadeza de um chute no traseiro. O povo, coitado, não está podendo nem sentar, mas que, cegamente ouvindo do canto da sereia, continua carregando andor com santos de pau de oco, acreditando na conversa fiada dos Machados…
Crédito: Reprodução
Mas voltemos ao devorador de sardinha. Foi ele que me levou a Joaquim Nabuco, que certa vez escreveu: “A vaidade é fada decaída; vive de simulações e de artifícios.” Nabuco, como se sabe, foi colega de Machado de Assis na fundação da Academia Brasileira de Letras. Machado se tornou o primeiro presidente da instituição; Nabuco, seu primeiro secretário-geral.
A vaidade é uma sedutora barulhenta. A embriaguez da sua sedução faz até a lavadeira das cuecas do rei se sentir parte da corte. Ela nos atordoa a ponto de confundirmos proximidade com prestígio (cabe aqui como exemplo a lavadeira), reflexo com luz própria. No final do filme “O Advogado do Diabo”, Joln Milton (o diabo), papel brilhantemente interpretado por Al Pacino, diz, com um sorriso sarcástico, que a vaidade é seu pecado predileto.
No transcorrer da conversa dos dois homens, a sardinha entrou na conversa porque o homem ausente havia contraído um empréstimo com um deles e continuava ostentando em suas redes sociais uma vida de muita badalação sem, portanto, pagar o que devia. Não corro o risco de arrotar caviar (do qual só ouço falar), pois não como sardinha. Como lambari frito com uma cervejinha bem gelada, mas isso apenas em companhia de bons amigos, daqueles que são sinceros a ponto de me apunhalar pela frente, como o poeta Oscar Wilde definiu como um bom amigo deve ser.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
Leia também: O bicho pegou no meu carnaval
O post O homem que comia sardinha e arrotava caviar apareceu primeiro em Jornal Opção.