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Mulheres ganham flores no dia 8, mas levam culpa quando são vítimas de violência

 Sofreu abuso não, deu porque quis”... A frase foi publicada nas redes sociais do Campo Grande News após a divulgação de um caso envolvendo duas meninas de 12 anos vítimas de abuso sexual cometido por um rapaz de 18 anos. Não era uma crítica ao agressor, mas às próprias vítimas. O comentário não foi isolado. Entre as reações à reportagem, parte do público preferiu questionar o comportamento das duas crianças ao invés de condenar o criminoso. O episódio expõe uma contradição que reaparece ano após ano no mês de março, quando acontece o Dia Internacional da Mulher. Enquanto a data é marcada por flores, homenagens, caixas de bombons e mensagens de valorização nas redes sociais, mulheres e meninas ainda são frequentemente responsabilizadas pela violência que sofrem. Outras manifestações seguiram a mesma linha. “Não estou tirando a culpa do rapaz, mas essas meninas têm o quê na cabeça?”, escreveu uma leitora. Outro comentário dizia: “Tem hora que pedem isso”. Em outra publicação, um usuário afirmou: “Quem procura, acha.” Mesmo diante de vítimas com apenas 12 anos, parte das reações tentou transferir para elas a responsabilidade pelo crime. Em vez de indignação com o agressor, surgiram questionamentos sobre comportamento, decisões e supostas escolhas das próprias crianças. Entre os comentários, há ainda um detalhe que chama atenção: muitas das críticas também partiram de mulheres, reproduzindo o mesmo discurso de julgamento que historicamente acompanha casos de violência sexual. Quando a vítima vira alvo Para a delegada adjunta da Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), Analu Lacerda Ferraz, esse tipo de reação não é incomum. Segundo ela, a culpabilização da vítima aparece com frequência nos casos de violência sexual atendidos pela polícia. Quantas e quantas mulheres se culpam? A menina que estava saindo da academia às 10 horas da noite pensa: por que eu fui para a academia esse horário? Isso não teria acontecido se eu não tivesse ido.” De acordo com a delegada, muitas vítimas passam a questionar o próprio comportamento após a violência, como se pudessem ter evitado o crime. “A menina que foi estuprada pensa: por que eu não reagi? Se eu tivesse reagido, ele teria feito alguma coisa? Eu deixei ele me estuprar.” Esse sentimento costuma ser reforçado pelo julgamento social, que muitas vezes antecede qualquer investigação ou esclarecimento dos fatos. Para Analu, essa reação está ligada a padrões culturais ainda presentes na sociedade. Ela lembra que esse tipo de discurso aparece inclusive em episódios extremos de violência contra mulheres. “Você não viu recentemente aquele exemplo daquela menina de Goiás que foi morta pelo marido? As pessoas estavam dizendo: ‘Ah, mas também estava traindo’, como se isso justificasse alguma coisa.” Para a delegada, essa lógica tenta encontrar explicações para o crime no comportamento da vítima, e não na ação do agressor. “Ninguém permite ser estuprada. A culpa é única e exclusivamente do estuprador.” Violência que aparece nos números Enquanto o debate sobre culpabilização se repete nas redes sociais, os dados mostram que a violência contra mulheres continua sendo uma realidade grave em Mato Grosso do Sul. De acordo com o relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil (2021–2025)”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Estado ocupa a quarta posição entre os mais perigosos para mulheres no país em termos proporcionais. Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 39 feminicídios, com taxa de 2,6 mortes para cada 100 mil mulheres, acima da média nacional, de 1,43. No ranking, o Estado aparece atrás apenas de Acre, Rondônia e Mato Grosso. No acumulado entre 2021 e 2025, a violência letal contra mulheres no Estado cresceu 14,3%. Apenas entre 2024 e 2025, a alta foi de 10,5%. Em 2026, o cenário segue preocupante: até o início de março, quatro mulheres já foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul. A violência, no entanto, não aparece apenas nos casos fatais. Até o começo do terceiro mês do ano, o Estado já registrou 2.588 ocorrências de violência contra mulheres. Os dados também mostram que o feminicídio raramente é cometido por desconhecidos. Quase 60% das vítimas foram assassinadas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-companheiro. A residência da vítima aparece como principal cenário da violência: 66,3% dos casos ocorreram dentro de casa. A autoria também é predominantemente masculina. Em 97,3% dos casos com autor identificado, o agressor era homem. Informação como forma de mudança Apesar do cenário preocupante, a delegada afirma que o acesso à informação tem provocado mudanças graduais na forma como mulheres reagem à violência. Segundo ela, o aumento no número de registros não significa necessariamente mais crimes, mas mais denúncias. “Hoje eu enxergo que a mulher está mais empoderada de informação.” Para Analu, conhecer direitos e reconhecer comportamentos abusivos tem levado mais mulheres a procurar ajuda. “Antigamente um chefe passava a mão, alisava o cabelo da funcionária e aquilo era tratado como algo normal. A mulher se sentia constrangida, mas não sabia que era crime.”  Hoje, afirma, a reação tende a ser diferente. “Hoje ela sabe. Hoje ela vai na delegacia e denuncia.” Muito além das flores Na semana em que o país se prepara para o Dia Internacional da Mulher, empresas distribuem flores, colegas publicam homenagens e mensagens de valorização se multiplicam nas redes sociais. Mas a reação ao caso das meninas de 12 anos mostra que a mudança cultural ainda enfrenta resistências profundas. Mesmo quando as vítimas são crianças, parte da reação social ainda tenta explicar a violência pelo comportamento delas. Para a delegada Analu Lacerda Ferraz, enfrentar essa lógica é essencial para que o combate à violência avance de forma efetiva. “Quando a gente fala de empoderamento não é a mulher acima do homem. Quando a gente fala de empoderamento, a gente fala de empoderamento de informação.” Segundo ela, quanto mais as mulheres conhecem seus direitos e reconhecem comportamentos abusivos, maior é a chance de romper o ciclo de violência. “Uma mulher informada coloca esse tipo de sociedade em risco, porque ela não vai aceitar. Ela vai na delegacia, ela vai denunciar.” Para a delegada, mais do que gestos simbólicos em uma data específica, o enfrentamento à violência depende de mudança na forma como a sociedade reage quando ela acontece.

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