Dois dias em Campo Grande com direito a farto jantar na Fazenda Chaparral, onde funciona o haras da família Zahran, foram suficientes para que médico veterinário fosse convencido a desembolsar um total de R$ 3 milhões para os falsos negócios oferecidos por João Augusto de Almeida de Mendonça, também conhecido como “João Mentira”, e Camillo Gandi Zahran Georges, de 36 anos, acusados de liderarem golpes em série. A dupla e outros alvos da Operação Castelo de Cartas, deflagrada no dia 28 de janeiro, são suspeitos de levarem cerca de R$ 10 milhões de 4 vítimas no esquema chamado pela Polícia Civil de São Paulo de “Golpe do Falso Investimento”. O homem de 48 anos procurou a 1ª DP (Delegacia de Polícia) de São José do Rio Preto (SP) em maio do ano passado e a partir do depoimento dele, as outras vítimas foram identificadas. O veterinário descreveu ter sido convidado em 2022 por um amigo para conhecer empresários em Campo Grande que ofereciam oportunidades de investimento. Na fazenda, o homem afirma ter sido recebido pelo herdeiro do Grupo Zahran e João Augusto e após se deliciar em banquete, durante a noite, a dupla apresentou a ele proposta de investimento na empresa Next Security, que supostamente prestaria serviços de segurança para empresas ligadas à tradicional família sul-mato-grossense. Após a “reunião de negócios”, o veterinário e o amigo foram convidados a passar a noite na fazenda e no dia seguinte, após o café da manhã, foi levado para um “tour” na propriedade rural onde são criados cavalos de raça. O jogo de sedução incluiu ainda hospedagem em hotel da Capital com as despesas pagas por João Mendonça. A vítima afirma que deixou Campo Grande convencida da credibilidade do negócio e combinou de fazer aporte de R$ 1 milhão assim que concluísse a venda de uma fazenda que possuía no interior de São Paulo. Outro depoimento incluído na investigação indica que o haras serviu como ponto de encontro com casal que alega ter perdido R$ 5 milhões para Camillo e João Augusto. Ouvida pela polícia de São Paulo em dezembro do ano passado, a vítima, de 37 anos, lembra-se de ter frequentado a fazenda dos Zahran em diversas ocasiões para almoços, jantares e reuniões familiares. Contou ainda que foi durante uma desses encontros, ainda em 2023, que teriam surgido propostas de investimentos. A investigação conduzida pela Deic (Divisão Especializada de Investigações Criminais) de São José do Rio Preto aponta que o esquema também cooptou vítimas para investimentos em criptomoedas, uma suposta exportação de ouro, falsa representação da cachaça Pitú, abertura de supermercado. Segundo a polícia, empresas de fachada eram usadas para a movimentação e dispersão do dinheiro arrecadado. Os envolvidos devem responder por associação criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro. A operação – A Polícia Civil de São Paulo cumpriu mandados de busca e apreensão em Campo Grande no dia 28 de janeiro, quando prendeu João Augusto. Camillo, que teve a prisão decretada, não foi encontrado na ocasião e conseguiu a liberdade provisória mediante uso de tornozeleira eletrônica no dia 4 de fevereiro. A ofensiva da Deic apreendeu R$ 1,5 milhão em notas promissórias, além de R$ 250 mil em espécie durante as buscas nos endereços dos investigados. Também foram confiscados 10 carros de luxo, 7 relógios Rolex e 1 Cartier, as marcas suíças que fabricam os famosos itens que custam de R$ 30 mil a R$ 9 milhões, além de joias, dois iPhones de última geração, cartões bancários, máquinas de cartão e vasta documentação. Conforme relatório elaborado após a operação, para a polícia, “restou evidente a associação entre os investigados, para se locupletarem de valores subtraídos de vítimas diversas, por meio de estratagemas, vinculando o proeminente sobrenome Zahran, bem como a notória companhia de energia e gás”. Continua o texto. "Também é incontroverso o fato de que os investigados se beneficiaram dos citados valores, assim como parentes próximos. Não há dúvidas de que, confiantes na impunidade, permaneceram delinquindo durante anos, cujo saldo foi um prejuízo de milhões de reais às vítimas até então identificadas e a outras tantas que estão aparecendo após a divulgação do caso”, completa o texto assinado por investigador. “Em especial, destacamos o papel de João Augusto de Almeida Mendonça, vulgo “João Mentira” e Camilo Gandi Zahran Georges, maiores beneficiários do esquema criminoso, protagonistas das ações. O primeiro, notório estelionatário com inúmeros registros de ocorrências envolvendo seu nome, sem atividade formal comprovada, porém ostenta padrão de vida abastado, às custas do prejuízo alheio. O outro, herdeiro de grande fortuna, membro de uma das famílias mais ricas e importantes do estado do Mato Grosso do Sul, porém com comportamento desonesto, sobretudo após se relacionar com João Mendonça”, também registra o relatório. Outro lado – A defesa de Camillo Zahran sustenta que ele não conduziu as negociações com as vítimas e que João Augusto seria o responsável direto pelas tratativas. Ao pedir a revogação da prisão do cliente à Justiça, os advogados do herdeiro, Luciano Salles Chiapp e Marcio de Ávila Martins Filho, afirmam que “talvez até mesmo Camillo seja uma vítima, já que o Sr. João deve dinheiro até os dias atuais aos seus familiares”. No depoimento à polícia, no dia 2 de fevereiro deste ano, João Augusto confirmou que manteve relação financeira com Camillo Zahran, entre 2019 e 2024, mas porque pegava dinheiro emprestado mediante juros de 2% ao mês. Ele diz atuar na compra e venda de veículos e imóveis, além de negar ter usado o sobrenome Zahran para dar credibilidade a negócios e afirmou que suas atividades eram de seus exclusiva responsabilidade. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .