Entre desafios e conquistas: o caminho das mulheres na advocacia
Thaís Sena de Castro
A gaúcha Cléa Carpi, prestes a completar 90 anos, é uma referência nacional da advocacia, sobretudo por sua trajetória de pioneirismo. Em suas palavras, ela relata que seu reconhecimento profissional foi fruto da coragem para enfrentar os desafios impostos e da força das bravas advogadas que, unidas, consolidaram seu espaço na profissão.
Seu ensinamento traduz uma verdade incontornável: a história das mulheres na advocacia não se resume à feminilização ou à análise de dados estatísticos. Nosso lugar é conquistado pela competência técnica, pela firmeza em dizer o que precisa ser dito e pela firmeza de fazer o que precisa ser feito, mesmo diante de um cenário de adversidades.
Nosso êxito está alicerçado também na solidariedade. Mesmo quando atuamos em lados distintos, há entre nós um pacto silencioso de respeito mútuo, reconhecimento e apoio.
Os desafios, para nós, não são corriqueiros. Enfrentamos ainda o mal da sub-representação nos cargos de decisão, o desrespeito aos direitos de conciliar a maternidade e a vida profissional, o assédio moral, sexual e os preconceitos velados.
Institucionalmente, temos adotado medidas para enfrentar essas distorções. A incorporação da perspectiva de gênero nos nossos tribunais de ética, o combate ao chamado lawfare de gênero, a promoção da paridade nos espaços de decisão e a implementação de políticas permanentes de valorização da mulher advogada.
Mais do que uma pauta interna, trata-se de uma agenda democrática. A advocacia, enquanto função essencial à Justiça, tem responsabilidade direta na construção de um ambiente onde respeito, dignidade e equidade sejam valores inegociáveis.
O mês de março, símbolo internacional da luta das mulheres por direitos, convida à reflexão sobre quem somos no campo profissional, nossos desafios e como o enfrentamos.
Não basta celebrar trajetórias inspiradoras. É necessário assegurar que as novas gerações encontrem um caminho menos árduo, mais justo e mais humano para exercer sua vocação.
Fortalecer a presença feminina nos espaços de poder não fragmenta a advocacia – ao contrário, a fortalece.
Instituições plurais são mais legítimas, mais sensíveis às injustiças e mais preparadas para defender os direitos fundamentais.
Ética não se limita ao cumprimento formal de normas; ela se manifesta no compromisso cotidiano com relações profissionais livres de discriminação e de violência simbólica.
Assim é a OAB. Assim se organiza a advocacia.
Estamos construindo um legado com consciência de onde viemos e compromisso com a democracia.
Os frutos virão. Não tarda. Obrigada, Cléa Carpi. Sua história nos sustenta.
Thaís Sena de Castro, advogada e Secretária-Geral Adjunta da OAB-GO
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