Carlos Willian: poeta tão trágico quanto os gregos e tão modernista quanto Oswald e Gullar
Carlos Willian Leite, de 50 anos, é autor de um livro espetacular de poesia — “Noves Fora: Nada (Perna & Leite Editores, 124 páginas).
O poema que abre a obra é quase um credo, que seria aprovado pelos filósofos anglo-letão Isaiah Berlin e britânico John Gray. Para ambos, o futuro é incerto. Por isso, criticam os que sacrificam o presente como se isto fosse garantia de um porvir radioso. As boas intenções contribuíram para grandes tragédias políticas e humanas no século 20. Por exemplo, o comunismo na União Soviética de Ióssif Stálin e na China de Mao Tsé-tung.
“A dor fundamental” — que não é apenas a do poeta, mas de todas as mulheres e de todos os homens — é o título do poema que abre o livro. “Não há caminho e/ nada valho/ meu rir lascivo/ é uma coreografia de enganos// eu cresci como crescem/ os espantalhos// eu cresci sem planos”.
Trata-se de um belo poema, com o bardo apontando as contradições do mundo por meio mais do espanto criativo do que da angústia paralisante. Os espantalhos são seres “imóveis”, mas o poeta, que faz a comparação, não o é. “A dor fundamental” é rico em movimento, daí a coreografia, apesar dos “enganos”.
Crescer sem planos resulta mais em sugerir que é preciso perceber o mundo sempre com olhos novos, limpos e abertos. Olhos de poeta. De quem percebe as filigranas da vida, seus desconcertos, e as traduz em letras, palavras. A beleza que salvará o mundo talvez resida na poesia — que, depois de Auschwitz, ainda é possível. A poesia é gênesis: criação e reconstrução do mundo.
Em “As visões da cidade”, o poeta fala de seu assombro ao olhar la ville: “a cidade cresce ambígua e ínvia/ mas não a trago nos ombros”. Antes, no mesmo poema, sublinha: “a cidade nasce de um coração/ supérfluo/ sem margens e/ dos abismos que trago no ventre”.
Como captar o coração (seu “peso”) de uma cidade que, feita por seres moventes, está sempre sendo nascendo ou renascendo? O poeta frisa que “a cidade cresce exaurida na contramão dos gritos”. Pois bem: exaurida não é o mesmo que morta. Por isso, Carlos Willian acrescenta, adiante, que “cresce ambígua” (e talvez segregada — ricos e classe média de um lado e, de outro, pobres isolados). O que está mencionando, de maneira enviesada, é a diversidade de uma urbe.
Noutro poema, sem título, diz-se: “Meu corpo está seco e árido/ como se atestasse o peso das avenidas”. Mais uma vez, fala-se de um corpo, que mesmo seco, trafega pelas ruas. O peso das avenidas é, diria Drummond de Andrade, o peso do mundo. Mas o indivíduo segue, sendo poeta ou cidadão comum. Afinal, “meu corpo que quando cala/mesmo calado fala”. O poeta sabe que a poesia, mesmo quando silenciosa, grita e é escutada até pelos maus “ouvintes” (já disseram que a pior surdez é a dos que escutam “bem”).
De olho no mundo: de Guernica a Treblinka
Nós somos nós e, também, a humanidade. É isto que Carlos Willian afiança noutro poema: “meu corpo amorfo de vagar intenso/de guernica de treblinka”.
Sofre-se pela mortandade que aconteceu na cidade espanhola de Guernica, onde os alemães testaram armas e aviões que usaram na Segunda Guerra Mundial. Os mesmos alemães que, nazistas, criaram o campo de extermínio de Treblinka (um dos mais brutais e letais, ao lado de Auschwitz), na Polônia, e mataram milhares de judeus, testemunhas de Jeová e ciganos.
O poeta registra — e revisita — o mal-estar (supostamente) civilizatório. A brutalidade do século 20 talvez seja uma síntese ampliada de todos os séculos — inclusive do 21, com Gaza, Ucrânia e Irã.
O bardo acrescenta: “Porque aberta/ toda porta/ é viagem”. Parece um verso solto no poema — um haikai, por assim dizer. É de uma beleza imagética rara. A “porta” é pura dialética: entrada e saída, eterno retorno. Mas quem a abre (e nunca mais a fecha) de maneira luminosa é a poesia.
Carlos Willian é um poeta que nunca arromba portas abertas. Abre-as com a delicadeza de quem ama as palavras e as obriga a dançar.
O poeta é o único ser que escraviza palavras e elas, se pudessem falar — a rigor, falam —, agradeceriam. Mesmo os melhores prosadores têm dificuldades para fazerem as palavras dizerem mais do que podem ou querem dizer. Precisam se tornar poetas para exprimir de maneira adequada o inexprimível. Por isso grandes prosadores — como D. H. Lawrence — têm vezo poético.
Há um poeta intimista em Carlos Willian, um devedor (ou interlocutor) dos poemas românticos? Aqui e ali, sim.
Mas seu ceticismo, quiçá certo distanciamento, o afasta dos românticos. O que há, isto sim, é um poeta moderno que, depois de pôr tantos bardos no liquidificador — de Oswald de Andrade a Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar (o que mais admira), Paulo Leminski e Pio Vargas (com quem tem identidade, mas não subordinação) —, descobriu seu próprio sendeiro.
Recomenda-se ao leitor de “Noves Fora: Nada” que perceba que há unidade em seus poemas — uma conexão. Ainda assim, os poemas são autônomos, quer dizer, “gritam” sozinhos. Por liberdade, independência e beleza.
Um poema curto diz muito: “meu corpo noves fora: nada/ feito de sangue e cansaço feito/ de tudo que existe/ entre o escárnio e o abraço”. É um retrato não apenas do poeta — que, como Machado de Assis, é um narrador “suspeito”.
Na verdade, Carlos Willian, com poucas palavras, candentes palavras, faz uma biografia ampla dos indivíduos. De todos nós. “Entre o escárnio e o abraço” — afinal, diria Henry James, somos todos seres ambíguos, duplos (quiçá, seguindo Mário de Andrade, trezentos e cincoenta).
O poeta está nos dizendo, também, que existe um corpo que, como o bardo, fala. Pois é feito de sangue e, igualmente, cansaço. Às vezes, precisa-se de certo fastio para reolhar o mundo e os seres. O cansaço é afastamento — distanciamento — para melhor ver ou rever.
“Exílio voluntário” destaca que “a vida era larga” — “medida com os dedos”. Por si, uma imagem do balacobaco.
O tempo: a vida e a morte
Numa espécie de biografia do ser, o poeta nos diz: “aprendi a engendrar milagres/ com a ferrugem dos meus sonhos”.
Sonhos são velhos (mas sempre vivos, quer dizer, eternos), daí a ferrugem, mas sempre parecem novos e, como sugere o poema, podem engendrar milagres, quer dizer, novas vidas. Os sonhos, mesmo quando frutos do passado, criam vidas alternativas. Por meio deles, podemos “reparar” ou “reconstruir” o passado — ainda que ficticiamente. Talvez entender um pouco mais o que fomos e o que somos.
Adiante, o mesmo poema acrescenta: “eu compus meu próprio hades/ pra morar com meus demônios”.
Jean-Paul Sartre escreveu, com uma forte imagem tão poética quanto teatral, que o inferno são os outros.
O poeta Carlos Willian corrobora o filósofo e escritor francês: o inferno somos nós mesmos. O hades não sai de dentro de nós. Porque é parte de nosso ser, a nossa morada, quem sabe “alugada”.
Mas fica o alerta: a poesia é libertadora. Porque pode nos tornar mais suaves, doces. A poesia parece frágil como uma rosa, mas é mais potente e duradoura do que um míssil americano do norte ou russo.
Afinal, Stálin se foi, fossilizado como “demônio”, tirano dos tiranos, ao lado de Adolf Hitler — dois filhos de Caim —, e a poesia, quer dizer, Óssip Mandelstam, ficou, cristalizada como néctar dos deuses. A poesia tem um pacto com o eterno. Não morre jamais. Vaga, em caráter permanente, pelos escaninhos da mente — aqueles que reconhecem a beleza do mundo. É uma espécie de inconsciente draculiano.
Quando se tem 65 anos, o indivíduo é, mesmo que rejeite a pecha, considerado “idoso”. Quem diz isto melhor? O poeta: “um velho me contempla/debaixo da minha pele”. O livro é de 2006, quando Carlos Willian tinha 30 anos. Eis, portanto, o poeta mostrando o sentimento do mundo, digamos.
Poucos poetas escreveram tão bem sobre a velhice quanto a americana do norte Louise Glück (1943-2023). Carlos, “cuidador” das palavras, é um mestre ao tratar da velhice: “tudo se instala/neste rosto que envelheço/ até a porta do meu nome”.
O tempo, a velhice e a morte carnavalizam a poética de Carlos Willian: “os homens envelhecem nas margens da tarde/ no fundo do corpo onde a morte mora”.
No mesmo poema, no fecho, o poeta ensina, nietzschiano: “morrer é ficar encantado/ entre a corda/ o abismo/ e as sobras/ que sobram da morte”. Não há lamento. Não há lamúria. É uma poesia seca, ainda que sem escantear certo lirismo, afinal, postula, “os homens envelhecem nas margens da tarde”. Este é um dos mais belos e substantivos versos do livro.
O encanecer aparece noutro poema, sem título: “sei como amargura envelhecer/ dezenas de anos sobre o mesmo corpo”. É uma radiografia do existir: do mesmo corpo em tempos diferentes, quer dizer, da juventude à velhice. Depois, o fecho que, verdade, é uma abertura: “há sempre um tempo em que as colheitas se perdem”.
Pode-se “jogar dados com os mortos”. Sim, porque viver é sequenciar — prolongar — a vida dos que se foram, mas permanecem presentes em nós. Os mortos vivem nos vivos. No poema, sem título, o bardo nos diz, belamente: “naqueles dias/o tempo era um bêbado/encostado nos muros”.
A poética de Carlos Willian é uma celebração aguda da vida, sem, claro, excluir a morte. Poeta da contenção, ele opera pelas sínteses, mas buscando mais as hipóteses do que as teses — os fechos. Seu poemário é “abertura”, nunca “fins”.
Um poema de Carlos Willian embebeda-se de vida e morte: “(enquanto esperamos morremos)”. Ele sabe, discípulo das “águas de Heráclito”, que “não se vive a/ mesma vida duas vezes// sequer vive o mesmo dia”.
Uma imagem fantástica, por certo. O tempo é tão escorregadio, tão pouco palpável, que a comparação com um bêbado é de grande ciência poética. Digamos: o bêbado, o tempo, encosta-se no muro para observar a, diria Chico Buarque, banda passar.
Há outro poema que desperta a atenção do leitor da poesia carloswilliana — quiçá filho do grego Heráclito: “hoje amanheceu um pássaro/ em minha boca/ perdido do bando/ mestre em disfarces// amanhã pode ser/ que quem não amanheça sou eu// eu que permaneço sempre/ do outro lado de tudo/ que armazeno desertos/ sobre a mesa farta”.
É um poema sobre a morte, notadamente sobre a vida. Porque a morte não é maior do que a vida. A morte é apenas um pedacinho da vida — e não o mais importante. Tampouco é o último “trecho” do caminho de um indivíduo. É uma travessia para sua história.
Num poema, Carlos Willian assinala: “há pessoas que não morrem nunca/ como se os dedos criassem raízes no asfalto”.
“Os deuses moram nas tragédias”
O tempo urge e urra. O poeta diz diferente: “O tempo é escasso”. Por isso urge viver e não esperar para viver no futuro. Os que vivem para o futuro “morrem” para o presente e para os (indivíduos) presentes.
Um poema “O caos antropofágico”, tão belo quanto apocalíptico, merece transcrição completa: “sob a seca grafia/ meu corpo blasfema em silêncio// observo deuses/ na performance da queda/ nas bruscas formas de morte/ que vestem os dias// os deuses moram nas tragédias (…)”.
O poeta, de longe e de perto, observa (participante), mais do que contempla, a queda dos deuses. A rigor, a queda dos homens, que “mataram” Deus e ocuparam o seu lugar. Os homens, os novos deuses, são astros das tragédias individuais e coletivas.
O “corpo blasfema em silêncio”? Sim, mas as palavras que saem da boca e da pena do poeta não. Elas “gritam”. Por isso, o registro da “performance da queda”.
“Os limites provisórios” é um poema grego escrito no coração do Cerrado. Reza o bardo: “e pastam em nós os rebanhos/escondidos à sombra de nós mesmos/ à superfície enferrujada das pálpebras/ onde noturnas pequenas aves/ ciscam o mármore dos relâmpagos”. O poeta conclui, se conclui: “os escombros áridos dessa solidão”.
Em dois poemas, Carlos Willian dialoga com J. D. Salinger, do romance “O Apanhador no Campo de Centeio” (cuja melhor tradução continua a ser a de Jorio Dauster). No primeiro se diz: “e assim se arrastavam os homens no/campo de centeio/ e soavam tambores/ e tinham a cor do fogo e dos dias”.
No segundo, o poeta arauto sinaliza: “um grito:/ o silêncio apunhalado na tarde”. Mais: “e deus agora está cego e clama nomes e auroras”.
Cita-se Salinger, sem mencioná-lo pelo nome, exceto a personagem, e há um toque “mágico”, mais uma vez de tragédia grega, na poética de Carlos Willian: “holden, holden, holden caulfield…/ olha o teu abismo de apanhar homens// mas não deixa que os teus olhos/ ceguem outros olhos”.
Carlos Willian é poeta trágico e não resisto a transcrever mais um poema na íntegra: “me pus a orquestrar tragédias/ entre sessões de psicanálise e os regimes alimentares// e me foi dado sentir e saber:/ todas as chaves e cores claves/ de todos os bares// outros vinham das fórmulas exatas/ das múltiplas bocas da fome/ o corpo tentando o vário/ o fogo a valsa o homem”.
Este poema é das “homenagens” — uma citação, digamos — mais precisas ao modernismo (e não apenas pelo “o vário” e a ausência de vírgulas em “o fogo a valsa o homem”) e aos tempos atuais. Fico a pensar: todos os tempos são atuais — pois um é filho, o outro é pai e aqueloutro avô. Todos conectados.
A história não tem cortes reais — começo, meio e fim. Só amputações didáticas do que é largo mas parece curto. Não existem história antiga, medieval, moderna e contemporânea — só existe história, altamente contaminada por todos os períodos. A barbárie, por exemplo, não é uma etapa — tem um caráter, por assim dizer, permanente. Mas a beleza resiste a todas as tragédias. Porque temos a poesia para nos alegrar.
O mundo, sugerem os poetas, é uma fruta gigante de gomos conectados. Por isso somos gregos, romanos, brasileiros e goianos. Não somos apenas brasileiros e goianos. Há o específico, mas somos filhos do geral, de uma cultura universal.
Há, noves fora, poemas leminskianos? Não sei exatamente se, como Pio Vargas, são herdeiros do poeta paranaense, mas são os que têm menos energia vital. Carlos Willian cresce quando se vincula à tradição universal e desliga-se da “poesia-graça” de Paulo Leminski.
Depois, retomando o rumo, a partir da página 117, os poemas voltam a ter grandeza: “cada céu tem sua escada”. Trata-se do poema “Simulacro”. É um poema sobre o “eu”: “onde guardei os meus defeitos/ onde foi que me escondi/ foi entre nenhum e cada/ ou entre aqui e ali”.
“Noves Fora: Nada” é uma espécie de livro-tudo. O leitor pode abri-lo e ler os poemas separadamente. Porque resistem como se cada um fosse o (um) livro. Mas aquele leitor que atravessar a ponte, lendo todos os poemas, se conectará ao nirvana da poesia.
A “bravura” poética de Carlos Willian — feita de reticências invisíveis — merece fortuna crítica mais ampla. Porque é um dos melhores poetas do Brasil, mas infelizmente desconhecido para além do Rio Meia Ponte.
O post Carlos Willian: poeta tão trágico quanto os gregos e tão modernista quanto Oswald e Gullar apareceu primeiro em Jornal Opção.