Cícero e a caixa de esmolas
Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
Cícero Surra-o-Pau era um tipo muito conhecido e apreciado por todos. Vivia bêbedo, ou “no estado perfeito”, como ele mesmo afirmava. Casado e pai de dois filhos, tirava o sustento de uns biscates variados que fazia: carregava malas e volumes; ajudava em mudanças; levava recados… às vezes, muito a contragosto, trabalhava de servente de pedreiro, ou meia-colher, como muitos denominavam.
Mas o que ele gostava mesmo era das folias do Zé Pereira, que antecediam o carnaval. Mais propriamente de tocar o surdo, aquele tambor cilíndrico, de grandes dimensões e de som bem grave, responsável pela marcação das marchinhas e sambas. Daí nasceu o apelido, quando o chefe do pequeno conjunto musical lhe dava a ordem, de forma bem explícita e sucinta: — Cícero, surra o pau!
E ele, rapidamente, não se fazia de rogado e punha o instrumento a trabalhar.
Terminados os festejos de Momo daquele ano, ficou o coitado em situação de grandes dificuldades, sem dinheiro, pois haviam se passado muitos dias sem ganhar alguma coisa pelas pequenas tarefas que arranjava aqui e acolá. Entretanto, sempre surgia uma alma caridosa que, de modo generoso, não lhe deixava faltar o suprimento diário de cachaça. A mulher, pobrezinha, era lavadeira e ia buscar as trouxas de roupa suja em casas de família para levá-las “à fonte”, num tempo em que esse serviço era feito nos pequenos regatos que cortavam a cidade: no Rio da Prata; no Manuel Gomes e no córrego que corria por trás do Morro do Chapéu de Padre.
Porém, isso rendia uns poucos caraminguás que mal davam para “o de comer”.
Cícero herdara da mãe a devoção ao Senhor dos Passos e decidira a Ele pedir ajuda, a fim de buscar alívio para as agruras quotidianas de ordem financeira. Assim, todas as sextas-feiras passou a ir “beijar o santo”, na bela igreja de São Francisco de Paula, na Praça do Mercado. Sua presença a cada semana, coincidiu com um fenômeno percebido pelo zelador da igreja. Este notara que as esmolas depositadas às sextas-feiras, no pequeno baú de madeira sobre o altar lateral, começaram a minguar desde que Cícero passou a ser presença assídua, a cada semana. Achou melhor levar o fato ao conhecimento do provedor da Irmandade dos Passos, que já vinha reclamando da queda das ofertas, com as quais eram feitas as despesas ordinárias de manutenção do templo, o que incluía a pequena gratificação paga ao dedicado zelador.
— Pois ponha sentido nisso, Siô Adão. O Cícero é bem conhecido pelo estado de embriaguez permanente, mas é um bom homem.
Não creio que ele esteja furtando as esmolas. Em todo caso, fique de tocaia e veja se descobre alguma coisa.
— Sim, senhor. Vou ficar de olho. Até porque, o senhor se lembra bem da Leontina, aquela que punha nas esmolas uma nota de 100 cruzeiros e tirava uma de 500…
Na sexta-feira seguinte, pelas mesmas horas em que Cícero costumava aparecer, o zelador escondeu-se, sorrateiro, atrás da porta que levava à sacristia. Dali pôde vislumbrar muito bem quando Cícero, meio desconfiado e olhando para os lados, de modo a resguardar-se de alguma presença indesejada, entrou na igreja com seus passos trôpegos e pesados. Dirigiu-se primeiro ao altar-mor, onde beijou, reverente, a corda que cingia a imagem do Senhor dos Passos. Persignou-se com respeito para, em seguida, ir ter aos altares laterais. Ali, diante da imagem de São José, abriu a caixa de esmolas e catou algumas das notas que havia por ali, travando um singular diálogo com o santo:
— Ô meu São José, o sinhô sabe como as coisas andam… tô muito necessitado de uns cobres; a vida tá cara, as coisas tão difíceis e trabalho quase não há. Num vô minti pru Siô, é verdade que a precisão é mais pras coisa de cumê, mas também pra tomá uma pinguinha de vez em quando. O Siô vai discurpano a ousadia, mas vós num come; vós num bebe; vós num tem famía pra tratá… então, empreste cá uns trocados pra este pobre pecador que tá mais precisado do que o Siô!
E metendo o dinheiro no bolso, foi-se embora, sem que o zelador, contendo a muito custo as gargalhadas, tivesse tido a coragem de interceptá-lo.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
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