Em meio à escalada dos combustíveis e à pressão sobre o bolso do brasileiro, o governo federal abriu uma nova frente para tentar segurar aumentos considerados abusivos. A estratégia aposta em tecnologia, integração entre estados e fiscalização mais dura para impedir distorções nos preços — especialmente no diesel, peça-chave da economia. O anúncio foi feito pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, que detalhou um mecanismo inédito: o compartilhamento em tempo real das notas fiscais de combustíveis entre os estados e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Na prática, a medida cria uma espécie de “raio-x” instantâneo do mercado, permitindo identificar variações suspeitas de preços quase no momento em que ocorrem. “É do interesse do país ampliar a fiscalização e combater aumentos abusivos e ilegais”, afirmou Durigan. Fiscalização mais rápida e integrada A nova engrenagem foi definida no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária e já conta com adesão de 21 estados. Com isso, órgãos como ANP, Secretaria Nacional do Consumidor e Procons passam a atuar com mais agilidade e precisão. A lógica é simples: com acesso direto às notas fiscais, o governo consegue cruzar dados de compra, venda e distribuição — reduzindo espaço para especulação e distorções no preço final. Além disso, o acordo reforça o papel dos estados, que concentram as informações fiscais, e amplia o cerco sobre práticas irregulares no setor. Pacote tenta blindar consumidor A ofensiva contra os preços não se limita à fiscalização. Nos últimos dias, o governo anunciou um conjunto de medidas para tentar aliviar o impacto do diesel: Zerou PIS/Cofins sobre o combustível Autorizou subsídios a produtores nacionais Aumentou a tributação sobre exportações Estuda reduzir temporariamente o ICMS sobre diesel importado Essa última proposta ainda depende de acordo com os estados e deve voltar à pauta no fim de março. Guerra externa, impacto interno O pano de fundo da crise está fora do país. Segundo o governo, a alta internacional do petróleo, agravada pela tensão no Oriente Médio, pressiona diretamente o custo do diesel no Brasil — que importa cerca de 27% do que consome. A preocupação central, segundo Durigan, é evitar que esse impacto chegue integralmente ao consumidor. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido medidas para amortecer o efeito da crise internacional sobre caminhoneiros, empresas e famílias. Cerco também aos “devedores contumazes” Outra frente aberta envolve os chamados devedores contumazes — empresas que deixam de pagar impostos de forma estratégica para ganhar vantagem no mercado. Os estados se comprometeram a compartilhar listas desses contribuintes com a Receita Federal, especialmente no setor de combustíveis, onde a prática distorce preços e prejudica a concorrência. O que muda na prática A aposta do governo é que, combinando fiscalização em tempo real, redução de tributos e ação coordenada com os estados, seja possível conter abusos e dar mais previsibilidade ao mercado. Na ponta, o objetivo é direto: evitar aumentos artificiais e proteger o consumidor de oscilações que não se justificam pelos custos reais. Em um cenário global instável, a disputa agora é interna — entre o preço que sobe lá fora e o esforço para que ele pese menos aqui dentro