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Plano Collor — 36 anos: o dia em que o Brasil acordou confiscado

Djalba Lima

De Brasília

Há 36 anos, o Brasil viveu um daqueles momentos em que a História parece parar por alguns segundos antes de desabar sobre a vida cotidiana das pessoas. Era 16 de março de 1990. Na véspera, o país havia celebrado a posse do primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960: Fernando Affonso Collor de Mello, então com 40 anos, novato na política brasileira. Depois de duas décadas de ditadura militar e de uma longa transição democrática, parecia que o Brasil finalmente reencontrava o caminho da normalidade institucional.

Mas a esperança durou menos de 24 horas. Na manhã seguinte à posse, o governo anunciou o Plano Collor, um conjunto de medidas econômicas que entraria para a história como o mais radical experimento de intervenção estatal já realizado em economias em tempos de paz.

O plano tinha um núcleo simples e brutal. O dinheiro dos brasileiros seria confiscado. Contas correntes, cadernetas de poupança e aplicações financeiras acima de um limite mínimo foram congeladas. Os valores ficariam retidos pelo governo por 18 meses. Apenas pequenas quantias poderiam ser movimentadas.

De um dia para o outro, milhões de pessoas descobriram que suas economias estavam bloqueadas. O país acordou confiscado.

Multidão ocupa uma agência bancária brasileira em março de 1990 após o anúncio do Plano Collor, quando milhões de brasileiros descobriram que suas poupanças haviam sido congeladas pelo governo | Foto: Reprodução

O pano de fundo: a hiperinflação

Para compreender o clima daquele momento, é preciso voltar alguns anos. A década de 1980 havia sido devastadora para a economia brasileira. O país enfrentava uma crise fiscal profunda, dívida externa elevada e um processo inflacionário que se transformara em hiperinflação.

Durante o governo de José Sarney, vários planos econômicos tentaram conter o problema: Cruzado (1986), Bresser (1987) e Verão (1989). Nenhum deles resolveu o problema.

A inflação ultrapassava 80% ao mês. Supermercados remarcavam preços várias vezes por dia. Salários se dissolviam antes do fim do mês. Era um ambiente socialmente explosivo.

Quando Collor venceu as eleições de 1989, prometendo modernizar o país e destruir os privilégios dos chamados “marajás do Estado”, muitos brasileiros acreditaram que um líder jovem e ousado poderia romper o círculo vicioso da crise.

O choque

A equipe econômica do novo governo diagnosticou que o motor da hiperinflação era o excesso de moeda em circulação. A solução foi radical: retirar grande parte desse dinheiro da economia de uma só vez. Na prática, isso significava congelar os depósitos bancários da população.

A medida teve efeitos imediatos e devastadores. Empresas ficaram sem capital de giro. Comerciantes não tinham dinheiro para repor estoques. Consumidores perderam capacidade de compra.

Fernando Collor e Zélia Cardoso de Mello, uma das artífices do Plano Real | Foto: Reprodução

Em poucos meses, a economia mergulhou em uma recessão profunda. Milhares de empresas quebraram. E milhões de brasileiros passaram a desconfiar, para sempre, da segurança de suas poupanças.

O fracasso

O Plano Collor já nasceu cercado de desconfiança. Nos corredores da política e nas redações de jornal, alguns chegaram a apelidá-lo de “oitavo casamento de Liz Taylor”, numa comparação irônica com os relacionamentos breves da atriz anglo-americana – uma união que parecia destinada a terminar antes mesmo de começar.

A tentativa de estabilizar a economia, comandada pela então ministra Zélia Cardoso de Mello, conseguiu reduzir temporariamente a inflação, mas não resolveu as causas estruturais do problema.

Sem reformas fiscais consistentes e sem confiança política, a inflação voltou a crescer. O país permaneceu preso à instabilidade econômica.

Dois anos depois, o governo Collor entraria em colapso político, atingido por denúncias de corrupção que levariam ao impeachment do então presidente em 1992.

A promessa de redenção econômica terminou em uma das maiores crises políticas da história recente do Brasil.

A diferença entre choque e estratégia

A hiperinflação brasileira só seria derrotada quatro anos depois, com o Plano Real, implantado no governo de Itamar Franco e concebido pela equipe econômica liderada por Fernando Henrique Cardoso.

Ao contrário do choque abrupto de 1990, o Plano Real seguiu um caminho mais sofisticado: reorganização fiscal, criação de uma moeda de transição (URV) e construção gradual de credibilidade econômica.

A inflação foi derrotada sem confisco, sem ruptura institucional e sem devastar as poupanças da população.

A tentação do outsider

O episódio Collor também oferece uma lição política duradoura. Em momentos de crise profunda, sociedades tendem a buscar salvadores da pátria. Líderes que prometem varrer o sistema, romper com tudo o que existe e resolver problemas complexos com gestos espetaculares.

Mas a História mostra que governos construídos sobre a lógica do espetáculo político costumam produzir soluções igualmente espetaculares e perigosas.

O Plano Collor foi exatamente isso: um gesto dramático, uma aposta radical e uma experiência que transformou milhões de cidadãos em vítimas involuntárias de um experimento econômico.

Ecos do Tempo

Trinta e seis anos depois, a memória daquele dia ainda ecoa na sociedade brasileira. Ela nos lembra que crises econômicas profundas podem abrir caminho para decisões extremas. E que o fascínio por líderes que prometem atalhos costuma cobrar um preço alto.

Na manhã de 16 de março de 1990, milhões de brasileiros aprenderam isso da forma mais dura possível. Descobriram que, em certas aventuras políticas, o primeiro a desaparecer não é o problema econômico – é o dinheiro das pessoas.

Memória pessoal: quando ouvi falar do “caçador de marajás”

Em meados da década de 1980, eu estava em processo de transferência de Goiânia para Brasília. O Brasil vivia tempos turbulentos: a redemocratização ainda era recente, a inflação devorava salários e o país parecia procurar, quase desesperadamente, uma saída para sua crise econômica e política.

Naquele momento, o nome de Fernando Collor de Mello ainda era pouco conhecido nacionalmente. Eu sabia apenas que se tratava do governador de Alagoas, um político jovem que começava a aparecer no noticiário.

Foi então que percebi algo curioso. Em uma viagem de ônibus de Goiânia para Brasília, reparei que vários muros ao longo da estrada exibiam a mesma inscrição, pintada em letras grandes:

“Fernando Collor — o caçador de marajás.”

A frase se repetia tantas vezes que parecia parte de uma campanha cuidadosamente semeada pelo caminho. Naquele instante, pensei: as pessoas são tão manipuláveis que esse homem ainda pode se tornar presidente da República.

Não era exatamente uma previsão baseada em pesquisas ou análises eleitorais sofisticadas. Era apenas uma impressão intuitiva sobre o poder de um slogan simples em um país exausto pela crise.

E a promessa era sedutora.

Collor dizia que iria combater os “marajás”, servidores públicos com salários excessivos e privilégios incompatíveis com a realidade de um país pobre e desigual. Era um problema real, sem dúvida. Mas estava longe de ser o principal problema brasileiro naquele momento.

O verdadeiro drama do país era a inflação devastadora, a fragilidade das instituições econômicas e a incapacidade do Estado de organizar suas contas públicas.

Ainda assim, o slogan funcionou. A narrativa do jovem político disposto a enfrentar privilégios ajudou a impulsionar sua candidatura e a construir a imagem do outsider que viria salvar o país da velha política.

Poucos anos depois, a História confirmaria o alcance daquela campanha pintada nos muros: Fernando Collor chegaria à Presidência da República. E o Brasil descobriria, da forma mais dura possível, que slogans eleitorais raramente têm a dimensão dos problemas que prometem resolver.

Djalma Lima, jornalista e editor de Relatos — A Estação da História (https://tinyurl.com/msmmk462), é colaborador do Jornal Opção.

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