Há 17 anos, Maria Manich atravessou quase 16 mil km da Rússia até o Brasil, se apaixonou pela cultura e, há alguns anos, resolveu fincar raízes aqui, em Campo Grande. Este ano, uma amiga sugeriu unir o hobby de Maria pela confeitaria a uma nova empreitada: a produção de ovos de Páscoa. A ideia era mesclar a tradição brasileira dos ovos com os sabores russos e fazer chocolates no mínimo diferentões para sair do óbvio. Na cozinha da russa, nada de apenas doce de leite, Nutella, chocolate ao leite ou recheios já conhecidos. A grande aposta são os doces Pavlova e Medovik, trazidos da infância e dos anos em que viveu do outro lado do mundo. Uma das principais diferenças com os doces brasileiros é a intensidade: os russos vão menos no açúcar e apostam mais na acidez, com cremes à base de limão. Maria fez dois sabores tradicionais do país natal e um do Brasil, mas cada um tem a própria identidade. Para quem não sabe, a Pavlova é um merengue russo (parecido com suspiro) que é “crocante por fora e cremoso por dentro”. Entre as rachaduras do suspiro entra o lemon curd, trazendo um toque cítrico de limão siciliano que quebra a doçura. A decoração com “matrioska”, as típicas bonequinhas russas, por lá representa maternidade, amor e fertilidade. Maria explica que Medovik é um bolo com mel e smetana, um creme azedo típico russo. Por cima, vai uma farofinha do próprio bolo assada, calda leve de mel e um ursinho de marshmallow, técnica que a confeiteira aprendeu ainda na Rússia. “Ele é um sabor forte, mas ao mesmo tempo suave, sem ser enjoativo”. E tem um detalhe curioso: o doce teria surgido na Rússia czarista. Segundo a tradição, foi criado no século XIX para agradar a esposa do imperador, o que funcionou, porque virou o favorito da corte. “Resolvemos colocar a Pavlova no ovo, fizemos ovos e deu certo. É o primeiro ano que faço. Eu fiz curso na Rússia de marshmallow modelado, para essa Páscoa fiz uma capivara, representante de Mato Grosso do Sul. O Medovik é um bolo de mel, então fiz abelhinhas e um urso da Rússia”. Além dos dois, ela também fez uma releitura do chocolate trufado, muito tradicional no Brasil. O diferencial é o praliné de amendoim, ou farofa caramelizada. Todos os três sabores são vendidos a R$ 55. Maria Manich nasceu em Khabarovsk, no extremo oriente da Rússia, uma região próxima da China e a cerca de 600 km de Vladivostok. Mesmo sendo formada em Medicina Veterinária, decidiu mudar completamente de rumo. Ela passou pelo Japão, conheceu o Brasil e decidiu ficar. Morou em São Paulo (SP) e visitou diferentes regiões pelo país. A adaptação, porém, não foi simples. O clima foi o maior choque. “Lá é muito frio mesmo”, resume. Em compensação, a comida brasileira conquistou de imediato. E mais que isso: o comportamento das pessoas também. A informalidade, a conversa fácil, até o hábito de puxar assunto em fila de banco, algo impensável de onde ela veio. Hoje, Maria trabalha em outra área, mas mantém a confeitaria como “hobby e distração”. Só que não é um hobby qualquer. “O que mais chama a curiosidade são os nomes. Se chegar em mim e falar que tem um doce da Escandinávia, por exemplo, eu vou querer experimentar, independente de ser bom ou ruim. O que mais chama a atenção é a Pavlova, que já é conhecida porque tem confeiteiros que fazem, mas uma feita pela receita e tradição russa é diferente”. Para que tudo fique no ponto certo, Maria faz parte do processo em um dia e finaliza no outro. “Eu deixo tudo meio que perfeito, faço as casquinhas em um dia, o recheio em outro. A Pavlova é rápida, ela se seca sozinha em área aberta por 40 minutos. Medovik exige um preparo antes para absorver o creme”. As encomendas precisam ser feitas com cerca de 2 dias de antecedência pelo número da Leve de Neve – Doces Europeus (67) 9915-0710.