Sob sol de cerca de 30 °C em Campo Grande, a área internacional da COP15 reúne visitantes de mais de 130 países. Entre cardápios em português, inglês e japonês, o encontro de culturas também passa pela comida. E, em muitos casos, começa por ela. A reportagem entrou nessa experiência do jeito mais direto possível, sentando para comer. Ao lado de Kennedy Mwathe, do Quênia, dividiu um prato de arroz carreteiro. Foi ali que surgiu a primeira diferença cultural. “Na África, nós não comemos sozinhos. Nós comemos juntos”, explicou. A frase virou convite. E também pauta. Ao provar o prato, Kennedy aprovou. “É delicioso. Eu pensei que seria muito forte, mas é equilibrado. Tem proteína, tem carboidrato”, disse. O vinagrete também chamou atenção. “Eu gostei muito da salada.” Entre carne e adaptação - Se para uns a experiência começa com curiosidade, para outros vem acompanhada de adaptação. A alemã Eva encontrou na praça de alimentação uma alternativa fora do óbvio, salteña de jaca. “É realmente delicioso. Eu já comi salteña antes, mas com jaca nunca”, contou. Vegetariana, ela apontou uma diferença clara. “Não tem muita comida vegana. Na Alemanha há mais opções. Aqui tem muita carne, mas dá para encontrar alternativas se procurar.” A percepção se repete. Uma turista da Austrália, que preferiu não se identificar, também entrou no clima e saiu experimentando. “Provei açaí, tapioca, pão de queijo… tudo muito bom. As pessoas são amigáveis”, disse. Já o holandês Jeroen estranhou um hábito brasileiro que passa quase despercebido por aqui. “Aqui vocês comem comida quente no almoço. Lá a gente come sanduíche. Se eu como quente, fico com sono”, contou, rindo. Mesmo assim, ele aprovou a experiência e se encantou com um símbolo local. “Capivara? Muito legal!”, reagiu. Capivara no prato ou quase - Se os visitantes se surpreendem, os expositores também se adaptam. No Ateliê Márcio Capivari, Camila Santana aposta em versões veganas para atrair o público internacional. “Tem muito gringo procurando nossas comidas pantaneiras autorais”, explicou. O destaque é uma moqueca feita com jaca, criada especialmente para o evento. “Muita gente acha que a jaca é doce, mas usamos a verde, que funciona como legume. Isso gera curiosidade.” Segundo ela, a procura vem principalmente de estrangeiros. “Já atendemos coreanos, italianos, pessoas de vários países da Europa.” Em outro estande, a criatividade ganha forma. A responsável é Viviane Fernandes, que vende pastel em formato de capivara. “Quando eles veem, se apaixonam”, contou. Mas a aparência gera dúvida. “Eles acham que é carne de capivara, mas não é. É só o formato.” Produzido à mão, o pastel virou atração.“Já saíram mais de 50 em um dia”, disse. Cardápio global, gosto local - A praça de alimentação acompanha o perfil do público. Os cardápios são apresentados em três idiomas, português, inglês e japonês, refletindo o caráter internacional do evento. Entre as opções, o sobá pantaneiro e o arroz carreteiro custam cerca de R$ 30. Já versões veganas, como o sobá de legumes, chegam a R$ 38. Lanches como bao e salteñas ficam em torno de R$ 15. Também há pizzas veganas na faixa de R$ 28, além de bebidas como chá mate com limão por R$ 12, água, café e refrigerantes. O espaço ainda reúne sorvetes, castanhas e cafés, formando uma praça de alimentação completa. Se há divergência nos pratos, nas bebidas há consenso. “O que mais sai é o guaraná. Eles ficam apaixonados”, contou Viviane. E, no meio das descobertas, ainda aparece o tereré, muitas vezes explicado ali mesmo, na conversa, como uma forma de enfrentar o calor. Entre o arroz compartilhado, a jaca reinventada e a capivara que virou pastel, a COP15 mostra que, quando o assunto é comida, cultura não se traduz. Se experimenta.