Objetos afetivos ganham espaço e criam tendência de preservação de memórias
Guardar objetos deixou de ser apenas uma forma de acumular lembranças e passou a representar, para muitos, um modo de preservar histórias pessoais. Medalhas, passaportes, cartas, fotografias e pequenos itens trazidos de viagens ou herdados da família vêm ganhando novo significado, em movimento que também começa a se refletir no mercado de emolduramento.
A mudança de comportamento aparece em estudo da Deloitte, segundo o qual 72% dos colecionadores da nova geração priorizam legado em vez de retorno financeiro. Nesse cenário, cresce a busca por soluções capazes de conservar objetos carregados de memória e transformá-los em peças de destaque dentro de casa.
Profissionais do setor afirmam que o perfil da demanda mudou. Em vez de quadros, telas e gravuras, aumentou a procura por itens ligados a experiências pessoais, como conquistas esportivas, recordações de viagens e objetos associados à trajetória de familiares.
Segundo Nara Figueiredo, proprietária da Moldura Minuto Goiânia, o movimento já é perceptível no atendimento. “Hoje, as pessoas chegam com objetos que carregam história, uma medalha com o número de peito, lembranças de viagem, itens de alguém que já partiu. Elas querem dar forma ao que viveram”, afirma.
Esse comportamento aparece em relatos de clientes que decidiram transformar lembranças em peças permanentes de exposição. O educador físico Fábio Menezes, por exemplo, acumulou mais de 200 provas ao longo da vida e mantinha as medalhas guardadas. Depois, resolveu dar novo destino às conquistas. “Resolvi tirar da gaveta para eternizar essas memórias e compartilhá-las”, relata.
A nadadora Leticia de Paula, atleta do Corinthians e da Seleção Brasileira, também decidiu preservar em moldura parte de sua trajetória esportiva. Ao reunir medalha, fotografia da competição e um boneco comemorativo, transformou a lembrança em uma composição voltada à preservação. “Ficou perfeito. Eles estarão sempre guardados e preservados em um lugar de destaque na minha casa”, diz.
Nem sempre, porém, os objetos pertencem a quem encomenda o trabalho. Em um dos casos citados pela empresa, a social media Camila Pimenta reuniu itens ligados à história da mãe, como foto, passaporte, utensílios trazidos da Itália e uma carta de bisca, jogo tradicional que marcou momentos em família. “Esse é um presente diferente de todos que já dei. Estou dando uma obra de arte que é a vida da minha mãe”, afirma.
O estudo da Deloitte indica que o patrimônio global em arte e colecionáveis segue em expansão e deve alcançar US$ 3,47 trilhões até 2030. Nesse universo, a estimativa é de que cerca de US$ 992 bilhões mudem de mãos nas próximas décadas, em grande parte por meio de herança.
Mais do que números, o relatório aponta uma mudança geracional na forma de enxergar patrimônio. O foco deixa de estar apenas na valorização financeira e passa a incluir o legado familiar, a memória e o significado dos objetos preservados.
Para Nara Figueiredo, esse processo revela uma relação mais profunda com o que se escolhe guardar. “Cada objeto que chega até nós carrega algo que não pode ser medido. Não é só uma peça, é uma memória confiada ao nosso cuidado”, afirma. Na avaliação dela, em um momento em que o valor está menos ligado ao aspecto financeiro, preservar histórias também se torna uma forma de continuidade. “No fim, os nossos clientes escolhem quais memórias merecem permanecer visíveis para seguir contando suas histórias por gerações”, diz.
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