Ao contrário do que muitos pensam, a base da diversidade de peixes no Pantanal não está na planície alagada, mas nas cabeceiras dos rios da BAP (Bacia do Alto Paraguai), justamente onde a pressão humana é mais intensa. A constatação foi feita pelo estudo científico recente publicado na revista Ecological Modelling. O artigo “Modelagem da riqueza potencial de espécies de peixes na Bacia do Alto Rio Paraguai no Brasil” utilizou modelagem com algoritmo de aprendizado de máquina MaxEnt e uma base robusta com quase 28 mil registros de ocorrência para estimar a distribuição potencial de peixes. Ao todo, foram analisados 600 pontos de amostragem e compilados dados de diferentes estudos realizados na região. Os resultados mostram que a maior riqueza potencial de espécies foi identificada nos rios de planalto pantaneiro, como Cuiabá, Sepotuba, Miranda, Apa, São Lourenço e Taquari. Nessas áreas, a diversidade ambiental favorece a ocorrência de diferentes espécies. Segundo o Doutor em Zoologia Yzel Rondon Suárez, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e um dos autores do estudo, o grande diferencial da pesquisa é que, pela primeira vez, foi usado modelo de informação específico para áreas de rios. Segundo ele, as características naturais dos rios são determinantes para este tipo de estudo. “Os bichos evoluíram com características hidrológicas específicas relacionadas do rio, que são a velocidade da correnteza, o volume de água e o regime de cheias; fatores que definem se o peixe consegue subir o rio para se reproduzir”, explicou. A variação de altitude, a presença de corredeiras e a diversidade de substratos nos rios de planalto criam múltiplos nichos ecológicos. O estudo aponta que a altitude funciona como o principal filtro ambiental para a biodiversidade de peixes na bacia. Biodiversidade - A análise mostra diferença significativa entre o número de espécies registradas em campo e a riqueza potencial estimada. Esse padrão foi observado nas sub-bacias do Apa, São Lourenço, Piquiri-Itiquira, Taquari, Noroeste do Pantanal, Negro e Médio Paraguai. A maior riqueza estimada foi identificada na subbacia do Rio Apa, com até 229 espécies no ponto de maior sobreposição, seguida por São Lourenço, com 222 espécies, e Piquiri-Itiquira, com 220. Os resultados sugerem que a diversidade de peixes na Bacia do Alto Paraguai pode estar subestimada e reforçam a necessidade de ampliar pesquisas, especialmente nas cabeceiras e em subbacias ainda pouco amostradas. Hidrelétricas - Um dos pontos mais críticos destacados pelos pesquisadores é a coincidência entre as áreas mais ricas em biodiversidade e os projetos de infraestrutura. Segundo Suárez, na época do estudo, havia cerca de 130 represas na bacia do Alto Paraguai, seja em operação ou planejamento. Ele alerta que “esses empreendimentos são avaliados individualmente. Se esquece o efeito conjunto. Uma barragem pode parecer pequena, mas a soma de várias fragmenta o habitat e bloqueia rotas migratórias”, afirmou. O pesquisador destaca que uma única represa, dependendo da localização, pode comprometer a piracema (período de migração dos peixes) em toda a bacia. No caso do Rio Cuiabá, por exemplo, a interrupção da migração afetaria a abundância de peixes em extensos trechos, com reflexos para pescadores, comunidades ribeirinhas, indígenas e o turismo de pesca. Suárez também questiona soluções frequentemente apresentadas como mitigação. “A escada de peixe é uma metodologia criticada pelos cientistas há muito tempo. O impacto não é só local”, disse. Desmatamentos - Além das barragens, o avanço do desmatamento e da agropecuária nas bordas do Pantanal é apontado como fator de preocupação. A retirada da vegetação ciliar tem provocado aumento da erosão e assoreamento dos rios. Em áreas da Serra da Bodoquena, que engloba o município de Bonito, segundo o pesquisador, chuvas intensas já deixam turvas águas historicamente cristalinas. Hidrovia - Outro ponto sensível é a proposta de ampliação da hidrovia, inclusive, o governo federal está em processo para passar este serviço para a iniciativa privada. O professor explica que, para permitir o transporte de grandes comboios, são previstas correções no leito dos rios, como aprofundamento e alargamento. “Se a gente altera o leito, a água escoa mais rápido. Na época de piracema, os peixes vão ter menos água para subir o rio”, explicou. Essas mudanças, segundo ele, alteram o equilíbrio hidrológico ao qual as espécies estão adaptadas, reduzindo a intensidade da reprodução e afetando toda a cadeia econômica associada à pesca. Peixes pequenos - O estudo também chama atenção para a importância dos peixes de pequeno porte, muitas vezes ignorados. Espécies como lambaris e cascudos, comuns em riachos de cabeceira, sustentam a cadeia alimentar. “Eles são a base. Servem de alimento para os peixes maiores e mantêm o sistema funcionando”, afirmou Suárez. A pesquisa conclui que a conservação do Pantanal depende diretamente da proteção das cabeceiras da Bacia do Alto Paraguai. Alterações nessas regiões podem comprometer a biodiversidade aquática em toda a planície pantaneira. Os autores do artigo defendem que os dados científicos sirvam de base para políticas públicas voltadas ao planejamento do uso do solo, da matriz energética e da gestão dos recursos hídricos. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais .