O caso Jeffrey Epstein: a patologia moral elitizada para inglês ver
Leonardo Teixeira
Especial para o Jornal Opção
O nome de Jeffrey Epstein costuma frequentar espaço recorrente no noticiário internacional não apenas como a lembrança de escândalos criminais, mas como a reabertura de feridas mais profundas, por revelar como o poder pode se organizar, se proteger e, muitas vezes, se absolver.
O caso, que pode ser tratado como mais um episódio de exploração sexual envolvendo um indivíduo rico e influente, revelou-se, com o tempo, uma trama de relações que passava por governos, universidades, instituições financeiras, celebridades e círculos políticos de diferentes países (inclusive a família real da Inglaterra).
Não se trata apenas de um processo penal, mas de um fenômeno cultural, psicológico e institucional que expõe uma característica recorrente das elites modernas: a existência de zonas onde a lei parece chegar com atraso, hesitação, sigilo (ou silêncio).
A história de Epstein incomoda porque não se encaixa facilmente na narrativa comum do criminoso isolado. Ele não era um chefe de Estado, não era um grande empresário no sentido tradicional, nem uma figura pública de projeção eleitoral. Ainda assim, circulava com naturalidade entre presidentes, príncipes, banqueiros, empresários e acadêmicos, frequentando ambientes que, em tese, deveriam representar o ápice da racionalidade, da responsabilidade e do controle social.
Essa posição intermediária (do poder) é, sob o ponto de vista sociológico e psicanalítico, uma das mais perigosas. O mediador, o facilitador, o homem que conecta mundos, muitas vezes ocupa um espaço onde a vigilância se torna difusa e a responsabilidade se dilui.
Experiência do gozo sem limite
A psicanálise descreve esse fenômeno como a experiência do gozo sem limite, quando o indivíduo passa a agir como se a lei simbólica não lhe dissesse respeito. O poder, longe de eliminar o desejo, tende a ampliá-lo, sobretudo quando acompanhado da sensação de impunidade. Em ambientes de extrema riqueza e prestígio, essa sensação se fortalece por mecanismos sutis: a deferência social, o medo de escândalo, a dependência financeira e a crença de que determinadas pessoas são grandes demais para cair. Não é raro que, nesses contextos, comportamentos que seriam imediatamente condenados em qualquer outro meio sejam relativizados, ignorados ou tratados como excentricidades toleráveis.
Fantasias de transgressão intensas
A história oferece inúmeros paralelos. Escândalos envolvendo aristocracias europeias, cortes reais, altos membros do clero ou grandes conglomerados econômicos revelando um padrão semelhante: quanto mais fechado e privilegiado é o círculo, maior a probabilidade de que se formem espaços de exceção. Em tais espaços, a moral pública continua existindo, mas como aparência. A prática cotidiana passa a obedecer a outra lógica, sustentada pela lealdade interna e pelo receio de expor o grupo. O caso Epstein, ao trazer à tona relações que atravessavam fronteiras nacionais e setores distintos da sociedade, reforçou a percepção de que o problema não estava apenas em um indivíduo, mas em uma estrutura de convivência que favorece o silêncio.
Do ponto de vista jurídico, a gravidade das acusações não apresenta qualquer ambiguidade. Crimes como tráfico de pessoas, exploração sexual de menores, associação criminosa e lavagem de dinheiro estão previstos de forma clara tanto na legislação norte-americana quanto em ordenamentos jurídicos de outros países, inclusive no Brasil. A Lei nº 13.344, que trata do enfrentamento ao tráfico de pessoas, bem como o Estatuto da Criança e do Adolescente e dispositivos do Código Penal estabelecem sanções severas para quem se aproveita da vulnerabilidade alheia, sobretudo quando há lucro ou organização.
Nos Estados Unidos, diplomas legais criados nas últimas décadas ampliaram a responsabilização de redes que atuam de forma internacional ou que se beneficiam de estruturas financeiras complexas. Em teoria, portanto, o aparato legal é suficiente. O que o caso evidencia não é a falta de normas, mas a dificuldade de aplicá-las quando os envolvidos pertencem a círculos de grande influência. Uma alusão simplista seria a hipotética situação de um garoto, dono da bola, que, por si só, ao levar a bola para casa, acaba com todo o jogo de futebol.
Essa dificuldade não se explica apenas por corrupção ou conspiração deliberada, embora tais fatores possam existir. Ela decorre também de um fenômeno conhecido na criminologia das elites: crimes de alto nível raramente dependem apenas de quem os pratica; dependem de quem vê, suspeita ou sabe e, ainda assim, não denuncia.
O silêncio pode nascer do medo de perder prestígio, da dependência econômica, da descrença de que a denúncia produzirá resultado ou da simples recusa em confrontar pessoas poderosas. Em delitos de natureza sexual, especialmente quando há grande desigualdade entre agressor e vítima, esse silêncio se torna ainda mais provável. A vítima teme não ser acreditada; o observador teme se comprometer; a instituição teme o escândalo. O resultado é um intervalo de tempo que, muitas vezes, se mede em décadas. Claro que, há vários casos já julgados justamente em sentido contrário ao costumeiro marasmo de outrora.
Há também uma dimensão psicanalítica difícil de ignorar. Sociedades altamente reguladas e hierarquizadas tendem a produzir fantasias de transgressão cada vez mais intensas. Quanto mais rígida é a imagem pública de civilização, maior pode ser a atração pelo proibido no espaço privado. Escândalos envolvendo abuso, exploração e comportamento extremo não são exclusivos de uma época, mas parecem surgir com frequência justamente nos ambientes que proclamam maior controle moral.
A sensação de invulnerabilidade, alimentada pelo dinheiro e pela proximidade com o poder político, pode levar alguns indivíduos a testar limites progressivamente mais perigosos, como se a ausência de punição inicial fosse a prova de que nenhuma punição virá. Algo que pode ser percebido em filmes como “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut, de 1999, com Tom Cruise e Nicole Kidman) e “Pisque Duas Vezes” (Blink Twice, de 2024 com Channing Tatum e Geena Davis).
Na literatura, em 1926 “Traumnovelle”, escrito pelo austríaco Arthur Schnitzler, já retratava a elite rica envolvida numa sociedade secreta erotizada, com uma atmosfera psicológica interessante e perturbadora. Essa sensação conspiratória o nde uma camada invisível supostamente controlaria tudo, pode ser lida no “O Pêndulo de Foucault”, do italiano Umberto Eco.
A ideia de aliviar a pressão pela violência e sexualidade está na obra “Super-Cannes” (bem como na anterior Cocaine Nights), publicada em 2000 pelo escritor inglês James Graham Ballard. Arturo Pérez-Reverte, Donna Tartt, Dan Brown e vários autores já perceberam que o conteúdo mistério, sociedade secreta e conspirações poderiam atrair parcela significativa de leitores. De lá pra cá vieram diversas séries de livros.
Transparência absoluta e sigilo
Da literatura para a vida real. Quando casos dessa natureza chegam ao sistema político, surge um dilema delicado. A transparência absoluta abala a confiança nas instituições, sobretudo quando envolve figuras de grande relevância. O sigilo, por outro lado, alimenta a suspeita de que existe um mundo paralelo onde as regras são diferentes. Democracias modernas convivem permanentemente com essa tensão. Investigar até o fim pode significar expor falhas profundas; não investigar significa corroer a credibilidade lentamente.
O caso Epstein tornou visível essa contradição, ao mesmo tempo em que alimentou, no imaginário coletivo, a sensação de que a igualdade perante a lei é um ideal mais proclamado do que praticado.
Talvez seja por isso que o episódio tenha ultrapassado o campo jurídico e se transformado em símbolo cultural. Ele reúne elementos que, historicamente, provocam fascínio e repulsa: riqueza extrema, sexualidade, juventude, política e segredo. Mesmo quando surgem exageros ou teorias improváveis, eles se alimentam de uma percepção real de desigualdade. A ideia de que existem círculos onde a responsabilidade é menor ou onde a proteção é maior encontra eco em uma sociedade marcada por diferenças profundas de poder.
Capa de A República de Platão
Na “República” de Platão se discute o que aconteceria se alguém pudesse agir sem jamais ser punido, como no mito do anel de Giges, que torna invisível aquele que o usa (uma referência ao anel da invisibilidade do Senhor dos Aneis); a conclusão é inquietante, pois o filósofo sugere que muitos homens considerados justos o são apenas porque não possuem a oportunidade de serem injustos sem sofrer consequências. É fácil observar isso no trânsito, onde a velocidade máxima permitida numa via só é comumente observada na presença de radares.
Séculos depois, Friedrich Nietzsche afirmou que a moral dominante frequentemente não passa de um acordo social necessário para conter impulsos que continuam existindo sob a superfície, enquanto Sigmund Freud lembrou que a civilização é construída justamente pela repressão de desejos que jamais desaparecem, apenas se deslocam para formas indiretas, simbólicas ou clandestinas.
Já numa perspectiva política, Michel Foucault observou que o poder não se exerce apenas por meio da lei, mas também por redes de influência, saber e silêncio, capazes de proteger certos indivíduos, mesmo quando as normas são claras. Nesse sentido, episódios que envolvem elites, segredos e transgressões não representam necessariamente uma exceção à ordem social, mas podem ser vistos como uma de suas sombras inevitáveis, aquilo que surge quando o prestígio, o dinheiro e a proximidade com o poder criam a sensação de que a regra vale para todos (exceto para quem está suficientemente acima dela).
No fim, o que permanece não é apenas a memória de um criminoso, mas a inquietação diante de um sistema que, por vezes, parece incapaz de controlar aqueles que mais deveriam estar sob controle. Toda civilização sustenta a crença de que a justiça é imparcial. Casos como esse lembram que a imparcialidade não é um dado natural, mas uma construção frágil, que depende de vigilância constante. Quando essa vigilância falha, não é apenas um processo que se perde. É a própria confiança na ideia da lei que começa a se desfazer, silenciosamente, diante dos olhos (bem abertos ou fechados) de todos (não só “para inglês ver”).
Talvez seja por isso que o caso Epstein tenha provocado um desconforto tão persistente, mesmo anos depois de sua morte. Não apenas pela gravidade das acusações, mas porque ele parece confirmar uma suspeita antiga: a de que a justiça não falha por acaso, mas falha por estrutura.
Quando o poder se concentra, a vigilância se dispersa; quando o prestígio cresce, a responsabilidade encolhe; e quando a sociedade passa a acreditar que certos homens são grandes demais para serem julgados, abre-se um espaço onde a lei continua escrita, mas deixa de ser sentida.
É o que ocorre quando líderes religiosos são envolvidos em escândalos desse tipo. Isso não nos perturbam apenas porque revelam crimes, mas porque sugerem que o mundo sempre foi menos transparente do que gostaríamos de acreditar.
No fim, o verdadeiro choque não está na existência de redes ocultas, favores silenciosos ou cumplicidades discretas, mas na possibilidade de que elas nunca tenham sido exceção, e sim parte do próprio funcionamento das estruturas que chamamos de civilização. E talvez seja essa a razão pela qual, sempre que um caso como esse vem à tona, a sensação não é de surpresa, mas de reconhecimento, como se por um instante a realidade deixasse cair a máscara e nos permitisse ver, sem disfarce, o quanto a ordem social depende não apenas das leis que proclamamos, mas também dos silêncios que escolhemos manter.
Leonardo Teixeira é escritor, palestrante e ilusionista. É pós-graduado em Direito e Psicologia. É colaborador do Jornal Opção.
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