Da Nakba ao Estreito de Hormuz: quando a expansão se torna método de Estado
O anúncio de que Israel pretende ocupar o sul do Líbano e destruir casas após o fim das operações militares não é um ponto fora da curva. É a continuidade de uma lógica histórica que atravessa décadas e que encontra, no Sionismo, especialmente em sua vertente mais radical, o seu eixo político mais consistente: a expansão territorial como instrumento de segurança e poder.
A origem dessa dinâmica remonta à Nakba. A criação do Estado de Israel não se deu apenas como um ato diplomático, mas como um processo acompanhado de deslocamento forçado em massa. Centenas de milhares de palestinos foram expulsos, vilarejos foram esvaziados e uma crise de refugiados foi instaurada. Mais do que um evento histórico, a Nakba estabeleceu um padrão: o território como problema a ser resolvido por meio da remoção.
A Guerra dos Seis Dias consolidou essa lógica. A ocupação de territórios como a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza abriu caminho para uma política contínua de assentamentos e controle. O que era apresentado como medida temporária de segurança se transformou em estratégia permanente. O tempo deixou de ser aliado da paz e passou a ser ferramenta de consolidação territorial.
Nas décadas seguintes, esse modelo foi sendo refinado, mas nunca abandonado. E é essa trajetória que desagua no presente.
Em Gaza, o que se viu recentemente foi a radicalização máxima dessa política. A destruição em larga escala, o colapso de infraestrutura básica e o número elevado de civis mortos colocaram a ação israelense sob escrutínio internacional sem precedentes. O termo genocídio passou a ser utilizado com mais frequência em análises políticas e jurídicas, refletindo a gravidade da situação.
A proposta de ocupar o sul do Líbano e destruir casas segue exatamente o mesmo padrão. Não se trata apenas de neutralizar ameaças, mas de reconfigurar o território. A destruição de residências deixa de ser consequência da guerra e passa a ser ferramenta dela. É a institucionalização da devastação como método.
Paralelamente, a escalada contra o Irã em 2026 amplia o conflito para um novo patamar. Ataques diretos a alvos iranianos, incluindo infraestrutura energética estratégica, rompem com a lógica anterior de confrontos indiretos e colocam a região diante de uma guerra aberta entre Estados. O Oriente Médio deixa de ser palco de conflitos fragmentados e passa a operar como um sistema interligado de guerra.
Esse movimento tem consequências que ultrapassam o campo militar. O fechamento do Estreito de Hormuz, em meio à escalada, é um exemplo claro disso. Responsável por uma parcela significativa do transporte global de petróleo, o bloqueio da rota provoca impacto imediato nos preços internacionais da energia, pressiona cadeias produtivas e amplia o risco de recessão em diferentes economias.
O efeito é em cascata: aumento do custo dos combustíveis, pressão inflacionária, instabilidade nos mercados e desaceleração econômica global. Um conflito regional, nesse cenário, deixa de ser regional e se torna um fator de desequilíbrio sistêmico.
No plano interno israelense, a aprovação de medidas como a previsão de pena de morte para palestinos acusados de terrorismo reforça essa lógica de endurecimento. Não se trata apenas de segurança, mas de institucionalização da exceção. A desigualdade jurídica passa a ser formalizada, acompanhando uma desigualdade já evidente no campo militar e territorial.
Quando se observa esse conjunto: Gaza devastada, avanço sobre o Líbano, guerra direta com o Irã, endurecimento legal, o que emerge não é uma sequência de decisões isoladas, mas um projeto coerente. Um projeto em que a guerra não é apenas reação, mas instrumento contínuo de política.
É nesse ponto que o sionismo, na forma como vem sendo aplicado pelo governo liderado por Bejamin Netanyahu, criminoso de guerra condenado pelo Tribunal penal Internacional, precisa ser compreendido como prática concreta de poder. Não como a ideia original de autodeterminação, mas como sua versão contemporânea, marcada pela centralidade da força, pela ocupação prolongada e pela expansão territorial.
A chamada “Grande Israel”, muitas vezes tratada como retórica exagerada, encontra respaldo nos fatos. Não em declarações formais, mas na materialidade das ações: territórios ocupados, assentamentos ampliados, cidades destruídas e novas frentes de conflito sendo abertas. A expansão deixa de ser hipótese e passa a ser processo.
O resultado é um Oriente Médio em permanente ebulição. Gaza em ruínas, o sul do Líbano sob ameaça, o Irã diretamente envolvido, rotas globais de energia comprometidas. O conflito se expande em geografia, intensidade e impacto.
Mas há um elemento que atravessa toda essa história sem alteração: o custo humano. Da Nakba aos dias atuais, populações civis seguem sendo deslocadas, casas seguem sendo destruídas e comunidades seguem sendo desestruturadas. O padrão se repete, ainda que os contextos mudem.
Ao insistir nessa trajetória, Israel não apenas prolonga o conflito, ele redefine sua natureza. O que antes era uma disputa territorial se torna um sistema contínuo de guerra, com efeitos regionais e globais.
A história já mostrou que projetos baseados em ocupação, destruição e expansão tendem a produzir instabilidade duradoura. Ao aprofundar esse caminho, o governo israelense não sinaliza resolução, mas continuidade. E, desta vez, com impactos que já ultrapassam as fronteiras do Oriente Médio e alcançam o equilíbrio econômico do mundo.
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