Opositor acusa Medvedev de criar ‘império da corrupção’
O primeiro-ministro da Rússia, Dmítri Medvedev, é dono de um império de mansões, propriedades rurais no país e no exterior, iates de luxo e um palácio do século 18 em São Petersburgo, segundo relatório publicado pelo líder da oposição Aleksêi Naválni. A soma dos bens chegaria a 70 bilhões rublos (cerca de R$ 3,7 bilhões).
“Baseados nos documentos divulgados, afirmamos que foram transferidos, ao menos, 70 bilhões de rublos em dinheiro e bens a fundações de Medvedev”, diz Naválni, que preside a Fundação de Luta Contra a Corrupção, em um vídeo publicado no YouTube.
A fundação de Naválni acusa o premiê russo de criar uma rede complexa de oligarcas, fundações beneficentes e empresas offshore. “O principal elemento que une tudo isso em um sistema é Medvedev”, diz o opositor.
O esquema envolveria pessoas de sua máxima confiança, incluindo o colega da faculdade de direito e primo, Andrêi Medvedev, e o alto executivo do Gazprombank e velho amigo de escola, Iliá Eliseev, além de um grupo de fundações beneficentes.
Os associados controlavam entidades beneficentes que recebiam doações volumosas dos empresários mais ricos do país ou empréstimos de bancos estatais. O dinheiro usado para comprar as propriedades, era, segundo Naválni, suborno e parte do esquema para disfarçar as posses de Medvedev.
Na denúncia, Eliseev é apontado como o “principal confidente” do primeiro-ministro e responsável por conduzir toda a cadeia de corrupção.
Reação nas redes
O filme de 59 minutos apresentado por Naválni inclui imagens das propriedades mencionadas no relatório feitas com o uso de drones. O vídeo recebeu cerca de 3,3 milhões de visualizações em pouco mais de 24 horas.
O material apresentado na denúncia foi, segundo o opositor, baseado na análise de dados de fácil acesso, como cópias dos registros prediais, dos registros de pessoas jurídicas, em organismos oficiais e redes sociais, entre outras fontes.
Diversos blogueiros e jornalistas do país qualificaram o relatório como o “mais impressionante” e “chocante” já divulgado por Naválni.
No entanto, o advogado da Transparência Internacional na Rússia, Dênis Primakov, alerta que, do ponto de vista jurídico, nenhum dos documentos publicados mostram que as propriedades e fazendas pertencem a Medvedev. A única ligação rastreável, acredita o especialista, seria em relação ao vice-presidente do conselho administrativo da Gazprombank, “embora não seja suficiente”.
Segundo Primakov, a investigação terá de produzir um parecer sobre a veracidade dos dados apresentados e fazer pedidos oficiais a outras jurisdições, uma vez que parcela das supostas propriedades de Medvedev estão situadas no exterior.
Renúncia e protestos
A porta-voz do primeiro-ministro, Natália Timakova, declarou que as acusações do líder oposicionista são “de natureza claramente pré-eleitoral”, acrescentando que “não faz sentido comentar sobre injúrias propagandistas do opositor”.
Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmítri Peskov, o governo não tem conhecimento dos materiais da investigação, qualificada por ele como “o trabalho de um cidadão condenado”, referindo-se à sentença recente contra Naválni.
A Comissão Anticorrupção da Duma (Câmara dos deputados na Rússia) se absteve de comentários.
“Nas horas seguintes à notícia, as autoridades ficaram desorientadas”, disse à Gazeta Russa Ekaterina Chulman, professora do Instituto de Ciências Sociais RANKhiGS. “É evidente que ninguém entendia o que estava acontecendo nem sabia como reagir.”
A maioria dos especialistas e formadores de opinião no país não preveem, porém, a renúncia do primeiro-ministro. “[Na Rússia] não se vê renúncias após escândalos, não é comum”, acrescenta Chulman. “Seria considerado um comportamento inadequado e impróprio, o que prejudicaria a estabilidade do governo.”
Além disso, segundo a professora, o surgimento de investigações semelhantes dentro do sistema seria interpretado como um movimento da oposição, e não como uma ação da sociedade civil ou uma vitória contra a corrupção.
Em uma coluna no jornal “Vêdomosti”, o cientista político Konstantin Kalatchev sugere que a maior pergunta de todos não é se Medvedev é “realmente corruptor”, mas “quem deu a ordem para iniciar uma investigação desse tipo”.
Ambos os especialistas acreditam, porém, que o chamado “império da corrupção” atribuído a Medvedev não passará despercebido na sociedade, embora os russos dificilmente saiam às ruas. “Mas terá peso em termos de apatia e aversão [à figura do premiê russo]”, conclui Chulman.
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